Título: Crise põe união sul-americana em xeque
Autor: Goes, Francisco e Goméz, Natália
Fonte: Valor Econômico, 03/05/2006, Especial, p. A10

A decisão da Bolívia de nacionalizar seu gás e petróleo começa a sepultar o projeto de Comunidade Sul-Americana de Nações lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, estimam analistas. A idéia era de que a partir do Brasil e do Mercosul se exportasse estabilidade para o resto da América do Sul. "O que está acontecendo é que estamos importando instabilidade do resto da América do Sul para o Brasil", avalia Alfredo Valadão, diretor da cátedra Mercosul do Instituto de Estudos Políticos de Paris.

"É a emergência de uma América dividida, em que a comunidade sul-americana [cuja sigla é Casa], virou uma barraca", diz Marcos Jank, presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Ícone).

Analistas não entendem o que o Brasil queria de fato ao falar de "liderança não hegemônica", mas constatam que a crise atual mostra que o país deveria ter primeiro reforçado e estabilizado o Mercosul, e depois então a América do Sul.

Ao invés disso, a entrada da Venezuela no Mercosul complica o bloco. "Em vez de ter posição pragmática de integração, o que Chávez [o presidente da Venezuela] quer é, por motivo ideológico, se contrapor aos EUA, e não reforçar a capacidade de barganha da América do Sul", diz Valadão.

A saída da Venezuela da Comunidade Andina (CAN), a disputa entre Chávez e o peruano Alan García, a questão de compra de títulos argentinos por Chávez e agora a nacionalização boliviana mostram, na avaliação de Jank, uma América dividida entre dois modelos: o dos EUA, representado pelo Nafta (Acordo com Canadá e México) e o modelo Chavez-Morales de alinhamento político-ideologico, baseado em forte intervenção governamental e anti-americanismo.

"O Brasil precisa tomar atitude, por uma reflexão profunda. Não vejo o Brasil alinhado por esse grupo, apesar de ter colocado uma pá de cal na Alca, para o que os EUA também ajudaram", diz. Ao seu ver, o que está acontecendo com a Bolívia pode se repetir na Venezuela, onde haveria pressão sobre a Petrobras e outros empecilhos.

Ontem a Ucntad divulgou que disputas entre investidores e governos continuam a aumentar. Em 2005, foram abertos mais 48 casos, elevando a quase 250 os conflitos por acordos internacionais de investimentos. Nada menos de 61 governos (37 de países em desenvolvimento, 14 desenvolvidos e 10 da Europa central) enfrentam conflitos com investidores. A Argentina é campeã, sofrendo 42 processos. A Bolívia já tinha um processo.