Título: Empresas não têm plano B caso falte o gás da Bolívia
Autor: Goes, Francisco e Goméz, Natália
Fonte: Valor Econômico, 03/05/2006, Especial, p. A10

Setores que dependem quase totalmente do gás da Bolívia como matriz energética, como o cerâmico e o de vidros, não têm um plano alternativo para substituir o gás da Bolívia, caso haja interrupção no abastecimento. A alternativa mais imediata seria o Gás Liquefeito de Petróleo (GLP), mas isso demandaria investimento e tempo, e poderia resultar em paralisação da produção.

O gerente geral da Cerâmica Sumaré, de Hortolândia (SP), Marco Barbosa, que admite não ter um "plano B" para substituir o gás como matriz energética. Para ele, esse cenário extremo seria pouco provável. Mesmo assim, o setor já será afetado negativamente com um simples aumento do preço do gás, que representa algo em torno de 20% dos custos de uma cerâmica. Com o mercado interno fraco e com as exportações prejudicadas pela valorização do real, Barbosa avaliou que a maioria das empresas terá que reduzir custos, o que significa demitir funcionários.

Em Santa Catarina, o dia foi de reuniões entre empresários do setor e da SCGás. Os industriais avaliam o uso do Gás Liquefeito de Petróleo (GLP), que parou de ser usado no fim dos anos 90, como uma alternativa emergencial a uma possível crise no abastecimento.

As empresas pediram ontem à SCGás um plano emergencial para uma possível interrupção no fornecimento e uma ajuda até mesmo nos novos planos com o GLP, se essa for a saída, mesmo que ela não distribua esse tipo de combustível, atuando via parcerias. "Uma interrupção do fornecimento do gás boliviano seria desastrosa para o setor", disse Murilo Bortoluzzi, presidente da Associação Sul Brasileira da Indústria de Cerâmica para Revestimento (Asulcer).

Otmar Müller, superintendente industrial da Eliane Revestimento Cerâmico, reconheceu que uma eventual interrupção no fornecimento de gás da Bolívia seria prejudicial à empresa. A Eliane tem quatro fábricas em Santa Catarina que dependem em 100% do gás boliviano. Em caso de desabastecimento, as fábricas teriam que migrar para GLP, processo demorado que paralisaria a produção. "Existe também a incógnita sobre a disponibilidade atual de GLP no país."

As cerâmicas são as principais consumidoras de gás natural da SCGás, respondendo por 51%. O insumo começou a ser usado em larga escala a partir do ano 2000. Até agosto de 2003, a SCGás manteve os preços congelados, mas aumentou o preço em 9,4% no ano passado e sinalizou com novos reajustes neste ano. "Estamos surpresos e preocupados. Além da possibilidade de faltar um produto que é vital para nossa empresa, já se sabe que o preço vai aumentar", reclamou Edson Moritz, gerente de marketing da Portobello.

A SCGás não trabalha com a hipótese de desabastecimento. O presidente em exercício, Walter Piazza, destacou que a Petrobras vem garantindo o cumprimento dos contratos e a SCGás mantém, por enquanto, os investimentos de R$ 65 milhões neste ano, sendo R$ 52 milhões em expansão da rede.

No Paraná, onde a indústria de porcelanas e cerâmicas é uma das que mais consomem gás natural boliviano no Estado, o clima é de expectativa. "Entendemos que só mudará o fornecedor, da Petrobras para o governo da Bolívia", minimizou José Canisso, presidente do Sindilouça, sindicato que reúne 36 empresas de Campo Largo, na região metropolitana de Curitiba. Ele contou que o município tem hoje nove grandes consumidoras do gás boliviano, entre elas a fabricante de cerâmica Incepa e a de porcelanas Schmidt.

"Os recentes acontecimentos na Bolívia podem afetar diretamente a nossa produção", comentou Jorge Francino, diretor-presidente da Incepa, que tem duas unidades no Paraná, uma em Campo Largo, que consome 1,5 milhão de metros cúbicos por mês de gás natural, e outra em São Mateus do Sul, que usa o gás de xisto da Petrobras.

A indústria de vidro, que consome quase 1 milhão de metros cúbicos de gás por dia, também está apreensiva com a crise. Um eventual desabastecimento poderá obrigar as indústrias a converterem seus fornos para óleo pesado. Segundo a Abividro, entidade do setor, a conversão de um forno custaria cerca de US$ 1,5 milhão, quase 3% do custo de um novo forno, e levaria de 3 a 6 meses para ser concluída. O superintendente da entidade, Lucien Belmonte, diz que além do custo do óleo ser mais elevado, ele não é vantajoso no aspecto ambiental, por ser mais poluente. Belmonte explica que há três anos cerca de 50% das indústrias de vidro do país utilizavam óleo e que a conversão foi feita porque na época havia uma oferta excedente de gás no mercado.

A fabricante de garrafas térmicas Sobral Invicta, que tem uma fábrica de vidro em Pouso Alegre (MG), é uma das poucas do setor que não fizeram a conversão para o gás natural devido à distância da fábrica em relação ao gasoduto. Segundo o diretor administrativo financeiro, Márcio Ribeiro, esta é uma desvantagem competitiva por causa do custo menor do gás e pelo maior impacto ambiental gerado pelo óleo.

Já a Braskem pretende manter os estudos para a instalação de uma planta produtora de eteno e polietileno na fronteira entre o Brasil e o país vizinho. "O projeto continua em avaliação", afirmou ontem o vice-presidente de relações institucionais da empresa, Alexandrino de Alencar. O projeto é avaliado em US$ 1,5 bilhão.