Título: Conab minimiza ameaças de produtores de grãos
Autor: Bouças, Cibelle
Fonte: Valor Econômico, 04/05/2006, Agronegócios, p. B14

Responsável pela formulação e a execução da política agrícola do governo federal, a Conab parece não levar muito a sério as ameaças feitas por lideranças do setor rural de reduzir em até 30% a área plantada com grãos, fibras e cereais na próxima safra, que começa em julho. "Se falassem em [reduzir] 5% ou 10%, tudo bem. Mais do que isso é luta política", afirmou ao Valor o diretor de Logística da Conab, Silvio Porto.

Os protestos ruralistas, que começaram em Mato Grosso e espalham-se pelos principais pólos agrícolas do país, são encarados com restrições. "O câmbio não está ótimo. Mas se atrapalha nas exportações, ajuda a reduzir custos de produção para a próxima safra", observou o presidente da Conab, Jacinto Ferreira. "Não está tudo bem no campo, mas não avalizo uma queda de 30%".

Os protesto ruralistas buscam a renegociação total das dívidas com vencimento até dezembro por 10 anos e com dois de carência; moratória de 180 dias com bancos e credores privados; taxa de câmbio "especial" na exportação; garantia dos preços mínimos; e ampliação do seguro rural. Ferreira anunciou que a Conab usará até R$ 600 milhões para sustentar as cotações agrícolas de arroz, feijão e milho - R$ 150 milhões neste mês.

Em meio à insatisfação no campo, a Conab confirmou ontem a terceira redução consecutiva em suas estimativas para a atual safra 2005/06, que termina em junho. Pela nova previsão, devem ser colhidas 121,07 milhões de toneladas. O desempenho significará uma perda de 2,115 milhões de toneladas em relação ao primeiro levantamento, anunciado em outubro de 2005 pela Conab como "recorde histórico". Na safra passada, afetada por rigorosa estiagem, o volume bateu em 113,89 milhões de toneladas. O recorde continua a ser a colheita de 123,2 milhões de toneladas na temporada 2002/03.

A frustração com a colheita total de grãos, fibras e cereais nesta safra pode ser ainda maior, segundo o gerente de Avaliação de Safras da Conab, Eledon Pereira de Oliveira. "Estamos preocupados com os efeitos das geadas do Sul nas lavouras de milho e trigo. E o excesso de chuvas em Mato Grosso pode complicar a qualidade da soja", disse.

A soja, aliás, é o melhor termômetro para avaliar a trajetória descendente da produção brasileira. Em outubro, estimava-se a colheita de 57,63 milhões de toneladas. Em seguida, a Conab previu 57,94 milhões. Depois, em janeiro, voltou a arriscar 58,17 milhões. Em março, ajustou para 57,2 milhões e, em abril, recuou a previsão para 55,7 milhões de toneladas. Ontem, a Conab reviu a projeção para 55,23 milhões de toneladas. Ou seja, as perdas sobre a previsão inicial já somam 2,4 milhões de toneladas desde outubro de 2005.

A produção de algodão e arroz acompanha a redução da soja, carro-chefe da produção nacional. Na fibra, haverá um recuo de 17,6% na produção, para 1,07 milhão de toneladas. No cereal, a queda chegará a 11,3%, para 11,74 milhões de toneladas. Nos dois casos, será necessário usar os estoques oficiais do produto e aumentar as compras externas para garantir o abastecimento interno. Pelos dados da Conab, haverá crescimento expressivo na produção de milho (16%), milho safrinha (18,9%), feijão da primeira safra (3,1%) e feijão da terceira safra (39,4%).