Título: Renda da lavoura de soja recua para o nível de 2002
Autor: Bouças, Cibelle
Fonte: Valor Econômico, 04/05/2006, Agronegócios, p. B14
A crise de rentabilidade nas lavouras de soja, que vem se intensificando desde 2004, deve derrubar a renda dos produtores para um montante de R$ 22 bilhões este ano, conforme estudo inédito da RC Consultores. O valor, se alcançado, é 18,8% menor que o registrado no ano passado e 42% abaixo da receita obtida em 2004.
A queda significa um corte nominal na renda das lavouras de R$ 15,24 bilhões em dois anos, o que devolve a sojicultura brasileira aos patamares de 2002 - antes do "boom" vivido com a alta nos preços internacionais da commodity.
"A rentabilidade desse segmento, que em 2004 era de 20%, hoje está negativa em 6% ou 7% e com um crescimento no nível de endividamento. O segmento aponta um encolhimento na renda sem precedentes", avalia Fabio Silveira, economista da RC Consultores.
Para Silveira, a produção de soja, principalmente na região Centro-Oeste, mostra-se inviável economicamente. Ele observa que os preços do grão apontam queda em função da sua desvalorização no mercado externo e da alta do real sobre o dólar . Enquanto isso, houve forte aumento nos custos de matérias-primas entre 2004 e 2006. O custo com fertilizantes subiu 35%, para US$ 148 por hectare; o de óleo diesel subiu 185% (para US$ 1 por litro); os gastos com frete subiram 117%, para US$ 100 por tonelada e os custos com defensivos contra ferrugem, aumentaram 133%, para US$ 70/hectare.
"Essa crise é pior que a de 1994/95 porque naquela época a receita com soja ainda crescia e havia rentabilidade positiva", observa Silveira. O economista sugere, como saída para reverter a crise, uma mudança cambial - pouco provável, se o governo mantiver sua política atual - ou a reestruturação da dívida agrícola.
"A dívida é um fator de engessamento e que pode dificultar investimentos na safra seguinte", afirma, observando que a dívida agrícola no país hoje supera R$ 15 bilhões. Produtores falam em redução da área plantada na próxima safra de pelo menos 30%.
Em várias regiões do país, os protestos ganham força a cada dia. No Mato Grosso, representantes dos produtores reuniram-se no fim da tarde de ontem com o governador Blairo Maggi (PPS-MT), para pedir ações de apoio ao setor no Estado. De acordo com Ricardo Tomczyk, diretor da Aprosoja-MT, os produtores pedem a prorrogação das dívidas que têm junto ao setor privado por 180 dias, até que obtenham instrumentos para refinanciar esses débitos.
Junto ao governo, eles solicitaram mais uma vez a desoneração tributária do óleo diesel, a liberação de defensivos genéricos e a criação do seguro agrícola, para reduzir os custos de produção. "Se não conseguirmos uma renegociação das dívidas ou redução no custo de produção, os produtores certamente vão reduzir a produção em 30%", diz Tomczyk. A produção de soja no Mato Grosso este ano foi de 16 milhões de toneladas.
Ontem, o governo do Mato Grosso e o Ministério da Integração Nacional anunciaram a construção do trecho da BR-163 que liga Cuiabá a Santarém, e um projeto de cinturão verde em Cuiabá e Cáceres. E os protestos continuam em rodovias nas regiões Centro-Oeste e Sul do país.