Título: PMDB aprova convenção anti-Garotinho
Autor: Costa, Raymundo e Ulhôa, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 04/05/2006, Política, p. A5

Num dia em que o governo abriu formalmente negociações com o PMDB e o Superior Tribunal de Justa (STJ), na prática, recolocou no páreo a candidatura a presidente de Anthony Garotinho, os governistas do partido obtiveram uma expressiva vitória na Comissão Executiva Nacional: por 14 votos a 2, a sigla confirmou a realização de uma convenção extraordinária no próximo dia 13, cujo objetivo é liquidar de vez com a candidatura presidencial própria. A decisão deve outra vez acabar nos tribunais, desta vez por iniciativa de Garotinho, como informou ontem a governadora do Rio, Rosinha Matheus, no fim da reunião da Executiva.

Foi a maior vitória da ala governista, desde que, em convenção realizada em 2004, o PMDB decidiu, por maioria simples, que o partido teria candidato a presidente e que esta decisão só poderia ser revogada por outra convenção, por dois terços dos votos dos delegados. Essa convenção havia sido suspensa por uma liminar do presidente do STJ, Edson Vidigal, que posteriormente suspendeu também as prévias do PMDB sob a alegação de que ela seria realizada a partir da decisão de uma convenção - a de 2004 - que não tivera validade legal. Ontem, a corte especial do STJ revogou a liminar de Vidigal. Há dúvidas legais (a prévia de 19 de março passado foi transformada numa consulta informal), mas, na prática, Garotinho e seu grupo consideraram restabelecida a candidatura.

Apesar da decisão, os governistas resolveram convocar uma convenção no próximo dia 13. Por um placar indicativo do novo humor partidário: 14 a 2. Nos últimos meses, os governistas nem sequer conseguiam número para confrontar a oposição na Executiva Nacional. A discussão passou a ser outra: qual será o quórum da convenção do dia 13 para derrubar a tese da candidatura própria. A governadora Rosinha Matheus defendeu os dois terços, como determinou a convenção de 2004. Os governistas, que basta a maioria simples, pois a decisão da convenção é soberana. Rosinha acusou os governistas de "adotar estratégia para destruir a imagem pública de Garotinho" e disse que recorrerá da decisão aos tribunais.

Outros partidos, como o PFL, também esperam uma decisão para se posicionarem no jogo sucessório. A decisão tomada ontem pela Executiva Nacional revela não só o avanço do governo no partido, como também a rendição dos pemedebistas ao caráter regional da sigla: devido à verticalização das eleições, passou a ser mais conveniente para os candidatos nos Estados ficar sem candidato a presidente da República. Por outro lado, o presidente Lula teria na noite de ontem uma reunião com os caciques partidários para tentar resolver a pendência de cargos, inclusive com a nomeação de um novo ministro da Saúde - o nome mais cotado era o do médico Ernani Mota, ligado ao PMDB do Pará - e mudanças no Ministério das Comunicações.

Pela manhã, o presidente da sigla, Michel Temer, tomou café da manhã com o ministro Tarso Genro (Relações Institucionais). O coordenador político do governo propôs uma aliança formal do PT com o PMDB, inclusive com a perspectiva de um pemedebista ocupar a vaga de candidato a vice na chapa de Lula.

"Eu disse ao presidente Temer que, após o Encontro do Diretório Nacional do PT, ficam abertas as portas para uma coalizão política mais ampla", disse Genro. O ministro não quis, no entanto, adiantar qual seria esse formato mais amplo. "Pareceria que estamos dando como ganha a eleição e já estamos definindo ministérios", disse. "O ministro deixou claro que não se trata de mera adesão. Significa uma aliança ancorada em um programa comum de governo. Foi a primeira vez que ouvi isso do governo", relatou Temer.

Aliados de Garotinho comemoraram a decisão do STJ, que pode dar fôlego a uma candidatura fadada a ser rejeitada. O ex-governador iniciou uma greve de fome no último domingo, alegando estar sendo vítima de perseguição da mídia e de adversários políticos.

A primeira surpresa da cúpula pemedebista foi a participação da governadora Rosinha Matheus na reunião da Executiva Nacional, que havia sido preparada para liquidar a pré-candidatura de Garotinho. Ela fez um discurso emocional, com ataques à mídia e a críticos do marido, como o ex-governador Jarbas Vasconcelos, de Pernambuco, que defendeu punição a Garotinho pela greve de fome.

"Ele é traidor do partido", disse Rosinha à Executiva, lembrando momentos em que Jarbas ficou contra a orientação partidária, como na eleição de 1989, em que apoiou Mário Covas (PSDB) em vez de Ulysses Guimarães.

A governadora deu uma explicação para cada denúncia de irregularidades em financiamento da pré-campanha do marido e negou que ele tenha qualquer relação com traficante. Ela se referia à acusação de uso de avião do comendador Arcanjo, chefe do crime organizado do Mato Grosso.

Provocado por Jarbas, o diretório do PMDB de Pernambuco enviou carta a Temer criticando Garotinho pela "estratégia patética" da greve de fome e pedindo que a executiva nacional o considere sem condições de ser candidato a presidente.

"Ao escolher tal caminho, ao invés de defender-se das pesadas denúncias que lhe foram assacadas, despe-se o ex-governador fluminense de credenciais éticas para apresentar-se como candidato pemedebista a cargos públicos, em especial como aspirante à Suprema Magistratura da República", diz a carta.

Boletim médico, emitido depois de dois dias e 18 horas de jejum informou que o ex-governador já perdeu 2,3 quilos.