Título: Desaceleração reforça aposta em queda forte do superávit
Autor: Martins,Arícia
Fonte: Valor Econômico, 28/02/2012, Brasil, p. A3
A freada brusca das exportações brasileiras à China no primeiro bimestre do ano reforçou as previsões de queda expressiva no superávit comercial do país neste ano. Em 2011, a balança comercial do país teve saldo positivo de US$ 29,6 bilhões. Para 2012, as projeções apontam um resultado 30% a 65% menor.
Para alguns analistas, o crescimento de apenas 0,3% nas vendas brasileiras para a China no primeiro bimestre em relação a igual período de 2011 resulta mais da desaceleração na atividade do parceiro asiático do que de problemas locais, como uma menor produção do minério de ferro em janeiro após as chuvas em Minas Gerais e preços menores da commodity. Com a economia em desaceleração, a demanda chinesa por produtos básicos estaria, enfim, perdendo fôlego. Em 2011, as exportações brasileiras à China cresceram 46% em valor, para US$ 44,3 bilhões, e 7,9% em volume.
Com o pouso suave da atividade econômica chinesa - que deve crescer algo em torno de 8% este ano, após o avanço de 9,3% em 2011 - o reflexo aqui dentro seria um saldo mais magro na balança comercial brasileira, que pode encerrar 2012 com superávit entre US$ 10 bilhões e US$ 20 bilhões, de acordo com os analistas consultados. Na atividade doméstica, contudo, o impacto seria marginal, já que as exportações representam 12% do Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB), medida na qual o consumo das famílias pesa 60% e também é atendido por importações.
A balança comercial da China de janeiro surpreendeu negativamente Cristiano Souza, economista-sênior do Santander. Os dados de fevereiro serão divulgados nesta semana. Souza destaca que o mercado esperava queda de 3,6% nas importações do país entre janeiro de 2012 e igual mês de 2011, mas o recuo observado foi bem maior, de 15%. Em sua visão, a forte retração foi causada mais por uma demanda menos robusta por produtos básicos - a produção industrial chinesa está andando em ritmo mais comedido - do que por problemas na produção brasileira de minério.
"Isso é reflexo do aperto monetário e do aumento do compulsório pelo Banco Central chinês, que age devagar. Mas ao longo desse "devagar" veremos dados de atividade chinesa mostrando desaceleração", diz Souza, que projeta saldo positivo de apenas US$ 10 bilhões na balança brasileira para este ano. "A China vai comprar menos e o crescimento nos Estados Unidos é moderado. Juntando isso, teremos menos crescimento de preço e volume, tanto de manufaturados como de básicos", diz.
Para Rafael Bistafa, economista da Rosenberg & Associados, as chuvas em Minas Gerais foram o principal freio às exportações para a China neste início de ano, mas a recuperação em fevereiro foi mais fraca do que o esperado, o que pode indicar encomendas menores do país asiático. "As exportações para a China cresceram 4,1% em fevereiro sobre o mesmo mês do ano passado, enquanto a média dessa base de comparação era mais de 30%", diz Bistafa, para quem os números do primeiro bimestre não configuram uma tendência.
Rodrigo Branco, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), acredita que ainda é cedo para constatar que a demanda chinesa está perdendo força. Ele observa que o Índice dos Gerentes de Compras (PMI) industrial, medido pelo Departamento Nacional de Estatísticas da China, passou de 50,5 em janeiro para 51 em fevereiro. Já o PMI calculado pelo HSBC também subiu, de 48,8 em janeiro para 49,6 em fevereiro. Números acima de 50 significam expansão.
Esses dados, diz Branco, mostram que a economia chinesa não está perdendo ritmo tão rápido como se imaginava, e a tendência é que a China volte a liderar a pauta de exportações brasileira. "Eles têm essa demanda interna não atendida, precisam importar soja, petróleo e principalmente minério de ferro." Mesmo assim, a Funcex projeta superávit de US$ 15 bilhões para este ano, reflexo tanto de um volume menor exportado à Europa e à China como de preços menos inflados.
O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, lembra que os dados de exportação à China costumam melhorar quando entra a safra de soja. Para ele, o impacto da desaceleração chinesa - que é lenta e gradual - nos embarques brasileiros virá no longo prazo, já que o país asiático tende a mostrar um padrão de crescimento cada vez menor nos próximos anos e, portanto, demandar menos aço para construções e, consequentemente, menos minério. "Entendemos o momento como pontual. Não vejo os dados do primeiro bimestre como tendência."
Vale trabalha com superávit de US$ 19 bilhões para a balança comercial este ano. "As commodities vão continuar indo bem e os manufaturados, mal. Não há nada que justifique uma desaceleração brusca na balança."