Título: Vizinhos articulam o apoio
Autor: Vaz, Viviane
Fonte: Correio Braziliense, 01/10/2010, Mundo, p. 18
Blocos regionais fazem reuniões de emergência e condenam ameaça à ordem constitucional democrática
Uma intensa rede de contatos foi acionada rapidamente na região logo após os ataques ao presidente equatoriano, Rafael Correa, na manhã de ontem. Em poucas horas, foram convocados encontros extraordinários da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que reuniu altos representantes dos países-membros em Buenos Aires, durante a noite. As duas entidades, assim como o Mercosul, divulgaram mensagens de apoio a Correa e condenaram qualquer tentativa de ameaça ao poder constituído. Do Haiti, onde se encontrava em visita oficial, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, conversou com o colega equatoriano, Ricardo Patiño, e ajudou a coordenar a mobilização dos países vizinhos.
É muito importante que a nossa região tenha reagido rápido aos eventos no Equador. Não vamos tolerar afrontas ao processo democrático e à autoridade civil de um governo legitimamente eleito, disse Amorim à imprensa em Porto Príncipe. O Brasil foi um dos primeiros países a serem procurados pelo governo de Correa para ajudar na costura de um apoio coordenado entre os sul-americanos. Em seguida ao violento incidente envolvendo o presidente do Equador, Patiño telefonou ao embaixador do Brasil em Quito, Fernando Simas Magalhães, em busca de respaldo. O que eles pediram a nós foi uma mobilização de ordem diplomática em solidariedade ao estado de direito, disse Magalhães ao Correio. A embaixada, no entanto, negou que tenha sido feita qualquer solicitação de asilo ou abrigo.
Durante a noite, altos representantes dos governos da Unasul, convocados pela presidenta argentina, Cristina Kirchner, reuniram-se em Buenos Aires para aventar uma resposta a uma possível ameaça ao governo de Correa. O Brasil foi representado pelo secretário-geral do Itamaraty, Antônio Patriota, já que o ministro Amorim estava no Haiti e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participava de um comício da candidata governista, Dilma Rousseff, no estado de São Paulo. Lula não chegou a telefonar para o colega equatoriano durante o dia, mas, segundo o Planalto, teria recebido detalhes sobre o incidente em Quito por parte do venezuelano Hugo Chávez, para quem ligou pela manhã.
Antes da reunião, a Unasul já havia afirmado, por meio de nota, que a América do Sul não vai tolerar qualquer pressão ou ameaça sobre governos eleitos democraticamente por parte de setores que não querem perder privilégios. Seria um gravíssimo retrocesso para a região que voltássemos àquelas épocas em que as minorias impunham suas decisões pelo uso da força, destaca a nota, assinada pelo secretário-geral do bloco, Néstor Kirchner. O Mercosul, manifestou profunda preocupação com a situação no Equador e exigiu o imediato retorno da normalidade constitucional.
O secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, que convocou de forma extraordinária os países-membros para uma reunião, na tarde de ontem, denunciou o golpe de Estado em andamento no Equador, e conclamou os países a dar uma resposta contundente.
Separadamente, líderes da região também manifestaram apoio a Correa. No caso de Chávez e do boliviano Evo Morales, a mensagem veio acompanhada de uma acusação a Washington. Os governos que têm levantado a bandeira do socialismo democrático têm estado na mira da extrema direita, cujo amo sabemos onde está: em Washington, disse o venezuelano à emissora de TV Telesur. Como sempre, os adversários políticos da América Latina, aliados do governo dos EUA, tentam acabar com mandatos. Quando não conseguem por referendo, (tentam) com golpe de Estado. A história se repete, afirmou Morales.
A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, afirmou em comunicado que Washington expressa seu total apoio ao presidente Correa e às instituições do governo democrático no Equador. Convocamos todos os equatorianos a se unirem e trabalharem () para alcançar uma restauração pacífica e rápida da ordem, disse.
"Não vamos tolerar afrontas ao processo democrático e à autoridade civil de um governo legitimamente eleito
Celso Amorim, chanceler brasileiro
Medo e insegurança
Rodrigo Craveiro
O advogado equatoriano Roberto Carlos Freire, 38 anos, percebeu que havia algo estranho por volta das 10h (meio-dia em Brasília) de ontem. Um policial perseguia um estudante universitário, que tentou se refugiar em meu escritório. Foi aí que nos colocamos em alerta, relatou ao Correio, por telefone. Quito começava a viver um dia de pressão intensa, praticamente isolada do restante do país. Os policiais bloquearam as principais vias da capital, que tem cerca de 40km de largura e 10km de comprimento. A situação é muito tensa. Simpatizantes do presidente Rafael Correa estão caminhando até o Hospital de Regimento Policial, na tentativa de resgatá-lo, contou, às 19h30. De acordo com ele, helicópteros militares sobrevoavam Quito no fim da tarde de ontem (hora local) e as emissoras de TV locais se viram forçadas a retransmitir a programação de um canal estatal. Sem a polícia nas ruas, tivemos saques em várias cidades. Em Guayaquil, a 500km de Quito, cinco bancos e dois armazéns foram assaltados. Aqui em Quito, foram três bancos, comentou o advogado.
Segundo ele, policiais lançaram muitíssimas bombas de gás lacrimogênio por todos os lados. Freire mora na região centro-norte da capital, a apenas 4km da Avenida Occidental, onde se situa o Hospital de Regimento Policial. A região onde vivo está completamente fechada, e não existe tráfego, disse. Ele conta que saiu de casa apenas para buscar os filhos na escola as instituições de ensino suspenderam as aulas. O advogado não crê em golpe de Estado, mas reconhece que Correa tem cometido vários erros no governo. Eu destacaria sua incapacidade de construir consenso e diálogo.
Também por telefone, Ian Hughes, 35 anos, professor de inglês em uma escola de idiomas em Quito, afirmou que teve as aulas canceladas. Uma academia de ginástica vizinha à nossa filial de Guayaquil foi assaltada, contou. Os criminosos estão aproveitando a ausência da polícia nas ruas para roubar. O engenheiro mecânico Edgar Vinicio Valencia, 28 anos, vive em Pascuales, a 28km de Guayaquil. O nível de insegurança chegou ao limite. Temos saques, assaltos e furtos. Há um ambiente de incerteza total, desabafou, por meio do microblog Twitter. Equatorianos denunciaram ao Correio que a companhia nacional de internet teve os serviços cortados no início da tarde.
"Sem a polícia nas ruas, tivemos saques em várias cidades
Roberto Carlos Freire, 38 anos, morador de Quito
Colaborou Viviane Vaz
Memória Instabilidade crônica
A rebelião dos policiais, com seus desdobramentos, expôs mais uma vez as raízes de uma instabilidade política que levou o Equador a ter oito presidentes no intervalo de 10 anos desde meados da década de 1990, quando economia adernava, em crise financeira aguda. Foi nesse quadro que, 1997, o Congresso destituiu da Presidência o populista Abdalá Bucarám, declarado mentalmente incapaz ele tinha sido eleito menos de um ano antes. A vice, Rosalía Arteaga, assumiu o poder brevemente, até que o Legislativo nomeou como interino Fabián Alarcón, encarregado de conduzir eleições antecipadas, em 1998.
O eleito, Jamil Mahuad, adotou em 2000 a dolarização da economia, com a extinção da moeda local, o sucre. A medida teve impacto imediato e em cadeia nos preços de combustíveis, transportes, alimentos e todos os gêneros de primeira necessidade. Foi o bastante para deflagrar protestos e distúrbios violentos, que resultaram em uma rebelião indígena, apoiada por oficiais do Exército liderados pelo coronel Lucio Gutiérrez. Os revoltosos chegaram a proclamar um governo provisório, mas a cúpula militar o destituiu e encarcerou por seis meses o coronel foi libertado sem responder a nenhuma acusação.
O Congresso deu posse ao vice, Gustavo Noboa, que concluiu o mandato de Mahuad. Na eleição de 2002, Gutiérrez apresentou-se à frente de uma coalizão indígena-nacionalista e derrotou o milionário do setor bananeiro Álvaro Noboa. A aliança do coronel com a base esquerdista se rompeu após três meses de governo, com a decisão do presidente de manter a política econômica inclusive a dolarização e aderir à proposta norte-americana da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). A campanha de protestos nas grandes cidades e nas estradas foi retomada. No plano institucional, adversários de esquerda e direita uniram-se no esforço para destituir Gutiérrez.
Lucio Gutiérrez foi afastado em abril de 2005, em meio a outra onda de distúrbios, em sessão parlamentar realizada fora da sede do Congresso e na presença apenas de legisladores da oposição. Com apoio também da cúpula militar, foi empossado o vice, Alfredo Palácio. Gutiérrez, a essa altura respondendo a processos por enriquecimento ilícito, desvio de verbas oficiais e nepotismo, pediu asilo na embaixada brasileira em Quito e exilou-se em Brasília por dois meses. Depois de renunciar ao asilo, mudou-se para o Peru e depois para os EUA. Chegou a pedir asilo à Colômbia, mas em outubro retornou ao Equador, proclamando-se presidente legítimo.
Gutiérrez foi preso no desembarque e acusado de tentar subverter a ordem constitucional, mas foi novamente inocentado e saiu da prisão, graças a um entendimento entre seus partidários e a direita. Na eleição presidencial de outubro de 2006, o coronel apoiou seu irmão, Gilmar, que foi o terceiro colocado. O ex-presidente passou a engrossar a oposição ao vencedor e atual mandatário, o esquerdista Rafael Correa, e enfrentou-o no pleito de 2009, que se seguiu à adoção da nova Constituição. Com 27% dos votos, Lucio Gutiérrez perdeu para Correa e denunciou fraude.