Título: Motim contra Correa
Autor: Vaz, Viviane
Fonte: Correio Braziliense, 01/10/2010, Mundo, p. 18
Policiais se rebelam contra corte de benefícios e cercam o presidente, que denuncia tentativa de golpe e decreta estado de exceção
Policiais amotinados no Exército do Equador entraram em confronto na noite de ontem com tropas do Exército que resgataram o presidente Rafael Correa do hospital de Quito onde os rebelados o mantinham cercado, em uma crise que o governo classificou como tentativa de golpe de Estado por parte da oposição direitista e de setores das Forças Armadas. De volta ao palácio, o presidente confirmou a morte de um policial no tiroteio. Horas antes, ele dissera que os rebelados o mantinham como refém, reafirmara a decisão de só negociar com após o fim da sublevação e proclamara que só deixaria o local como presidente ou como cadáver. Correa colocou o Equador em estado de exceção para enfrentar a crise, iniciada de manhã com o motim de policiais contra a perda de benefício. Segundo o ministro de Segurança Interna e Externa, Miguel Carvajal, os protestos tinham deixado mais um morto durante o dia. De acordo com outras autoridades, cerca de 50 pessoas teriam sido atendidas com ferimentos nos hospitais de Quito.
Aprovada pelo presidente na quarta-feira, a nova Lei do Serviço Público elimina bônus e gratificações, e motivou os policiais a tomarem quartéis na capital e nas principais cidades, como Guayaquil e Cuenca. Os amotinados atacaram o presidente com bombas de gás lacrimogêneo quando, por volta das 10h, Correa compareceu ao principal quartel de Quito para dialogar. É um golpe liderado pela oposição e por certos setores das Forças Armadas e da polícia, acusou, falando à TV local. Senhores: se querem matar o presidente, aqui estou: matem-me, se tiverem vontade, matem-me, se tiverem valor, em vez de esconder-se na multidão, disse depois, exaltado, falando diretamente aos rebelados.
O Aeroporto Internacional de Quito, ocupado por militares da Força Aérea, estava fechado até o início da noite. O chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas, Ernesto González, ressaltou que a instituição está com o presidente. Estamos em um estado de direito, estamos subordinados à máxima autoridade, o presidente da República, disse.
Correa teve de usar máscara para suportar o gás lacrimogêneo e foi levado ao Hospital da Polícia. Depois, anunciou que estava pensando seriamente em optar pela morte cruzada mecanismo constitucional que o permite dissolver a Assembleia Nacional e convocar eleições gerais antecipadas. Vemos que alguns setores da direita estão se unindo a um grupo das Forças Armadas. É um pretexto para tentar tomar o poder. A Assembleia e alguns servidores públicos também se uniram à polícia. Correa tentou discutir o assunto, mas eles não quiseram nem negociar, relatou ao Correio Cristiane Passos, assessora da Comissão Pastoral da Terra (CPT, órgão da Igreja brasileira), que está em Quito para organizar um congresso(1).
A possibilidade de dissolver o Legislativo já tinha sido cogitada na noite de quarta-feira antes do motim da polícia , durante reunião com a ministra de Política, Doris Solís, para enfrentar resistências aos vetos presidenciais a alguns itens da Lei de Serviço Público. A morte cruzada é uma das possibilidades. Estamos em um projeto de mudança e precisamos construir leis de consenso, disse Solís, que lamentou a inconsequência da oposição, apoiada por um setor governista. Segundo a Constituição, a morte cruzada só pode ser usada uma vez nos três primeiros anos de mandato, quando o presidente julgar que a Assembleia Nacional tenha exacerbado suas funções constitucionais ou em situação de grave crise política e comoção interna.
Apelo Em meio à tensão que marcou todo o dia, o presidente do Banco Central, Diego Borja, pediu à população que mantivesse a tranquilidade e não retirasse dinheiro dos bancos, pois, sem a segurança policial, poderiam ser alvo de criminosos. O pior que pode acontecer neste momento é entrar em pânico, tirar dinheiro e colocar-se em risco de assalto, ponderou Borja.
1 Brasileiros na expectativa Cerca de 50 integrantes brasileiros do Movimento dos Sem Terra (MST) aguardavam ontem a reabertura do aeroporto de Quito e a normalização das atividades no Equador. Entre os dias 8 e 16 de outubro, está prevista a realização do V Congresso da Coordenadoria Latino-Americana de Organizações do Campo (Cloc), que pretende reunir camponeses e autoridades de todo o continente para discutir soberania alimentar e questões agrárias.
O congresso teria início na semana que vem. Dentro desse clima de instabilidade, a gente não sabe como vai ficar. Essas situações não se resolvem rapidamente, disse Cristiane Passos, assessora da Comissão Pastoral da Terra (CPT), órgão da Igreja Católica que atua com os movimentos agrários. Segundo a assessora, cinco membros da organização brasileira já estão em Quito e outros dois estariam ainda no Peru, à espera da reabertura do aeroporto, anunciada no início da noite de ontem. Cristiane explica que as organizações camponesas no Equador apoiam o governo Correa, mas cobram mais iniciativas.
"Se querem matar o presidente, aqui estou: matem-me, se tiverem vontade, matem-me, se tiverem valor
Rafael Correa, presidente do Equador
A crise no Twitter
Foi pelo Twitter, e não com um pronunciamento convencional, que o presidente Rafael Correa anunciou, no começo da tarde, o estado de exceção. A notícia chegou a ser um dos tópicos mais comentados entre brasileiros no microblog, e o nome de Correa foi um dos mais citados em todo o mundo. O venezuelano Hugo Chávez também usou seu perfil no Twitter para denunciar a tentativa de golpe. Estão tentando derrubar o presidente Correa. Alerta aos povos da Aliança Bolivariana! Alerta aos povos da Unasul! Viva Correa!, escreveu Chávez em sua página.
A conta oficial da Presidência do Equador (@Presidencia_Ec) trazia as últimas informações sobre o governante, sobre as medidas políticas que serão tomadas e mensagens à nação. Recomenda-se aos cidadãos que mantenham a calma nesse momento. Se está em casa, não saia, dizia um post.
Muitos internautas demonstravam solidariedade ao presidente, outros analisavam a situação. No Brasil, muitos tuiteiros aproveitaram o caos equatoriano para ironizar escândalos nacionais. Coronel do Equador para Gilmar Mendes: Precisamos de uma moção de apoio do Judiciário brasileiro ao golpe de Estado, postou o responsável pela conta @Esquerda_BR.