Título: Wal-Mart, Pão de Açúcar e Carrefour estão na reta final pelo Atacadão
Autor: Martinez, Chris
Fonte: Valor Econômico, 07/07/2006, Empresas, p. B4

A venda do Atacadão entra na reta final na semana que vem. Os grupos interessados devem entregar as propostas financeiras em 15 dias. Dos seis grupos que olharam a rede, estão na disputa apenas três: Wal-Mart, Carrefour e Pão de Açúcar. O que está em jogo é a liderança do varejo - nas mãos do Pão de Açúcar desde 2000.

O Makro, a americana Cotsco e a chilena Cencosud saíram do páreo antes mesmo de fazerem as propostas indicativas - a chamadas "non binding offer". Apelidado de "Projeto Maria" - numa referência à sede do grupo na Vila Maria, zona norte de São Paulo - a venda do Atacadão é coordenada pelo Citigroup.

De controle familiar, a rede Atacadão opera um bem sucedido modelo de negócio - que mistura atacado e varejo. Atende o público de baixa renda e também os transformadores - na verdade, ambulantes que vendem cachorro-quente nas ruas. O que chama atenção dos interessados é o seu baixo custo de operação: a rede não aceita nem mesmo cartão de crédito para não onerar a sua margem - que já é apertada. A maior parte das vendas é paga em dinheiro, na boca do caixa.

Extremamente simples, as suas 35 lojas são bem localizadas e algumas delas chegam a faturar R$ 20 milhões ao mês. O volume impressiona, até porque Carrefour, Wal-Mart e Pão de Açúcar têm poucas unidades com um faturamento tão expressivo. O Atacadão fatura algo próximo a R$ 5 bilhões por ano.

Diferentemente das grandes varejistas, o Atacadão tem um bom relacionamento com a indústria. "As negociações são acessíveis porque há parceria", diz um executivo de uma grande empresa de alimentos. Focado em preço - e não em agregar serviço aos consumidores - o Atacadão ganha dinheiro vendendo grandes volumes. Por isso, em geral mantém altos estoques de mercadorias.

O Valor apurou que alguns interessados temem não conseguir manter a mesma gestão. "O Atacadão é uma empresa tocada pelo dono e com poucos níveis hierárquicos", diz uma fonte do setor. "A negociação com a indústria certamente vai mudar", acrescenta.

O seu modelo de negócio não chega a se encaixar perfeitamente em nenhum formato dos interessados. O Wal-Mart é o que mais se aproxima, com a rede Sam's Club. Pão de Açúcar e Carrefour não têm operações do gênero.

Depois de ter feito aquisições desastrosas nos últimos anos - algumas com sérios problemas fiscais - o Carrefour tornou-se um comprador extremamente cuidadoso. O Valor apurou que o grupo francês quer se certificar de que o Atacadão está livre de qualquer pendência. De capital fechado, o atacadista volta e meia é acusado de ter sérios problemas fiscais.

Fonte que acompanha a negociação diz que, para evitar qualquer dor de cabeça ao futuro controlador, contingências fiscais, trabalhistas e civis estão sendo estimadas e serão colocadas numa conta à parte (na prática, uma conta gráfica, ou "escrow account", em inglês). O valor pode chegar a US$ 150 milhões.

Na compra do Sonae, pelo Wal-Mart, a "escrow account" chegou a US$ 200 milhões e o negócio foi fechado por US$ 720 milhões. A venda do Atacadão pode superar US$ 700 milhões. Os mais otimistas acham que o negócio pode bater na casa do US$ 1 bilhão. Procurado, o Atacadão não se manifestou.