Título: Governo vê espaço para PIB crescer 4,5% no ano
Autor: Neumann, Denise
Fonte: Valor Econômico, 07/07/2006, Brasil, p. A4

A equipe econômica festejou, ontem, o forte crescimento da produção industrial de maio, que registrou alta de 1,6% em relação a abril na série que já desconta os efeitos sazonais. A "alegria" teve duas causas. Primeiro, o ritmo forte foi lido como um sinal de que o Produto Interno Bruto (PIB) pode mesmo fechar o ano em 4% ou até acelerar para 4,5%.

Além de confirmar essa trajetória benigna da atividade, o resultado de maio trouxe, para o governo, argumentos para rebater críticas recentes de que estaria em curso no país um perfil de crescimento econômico que levaria o país a uma "mexicanização" - cada vez mais a industria local seria uma montadora de peças e componentes importados, a exemplo das famosas "maquiladoras" mexicanas.

"A indústria pode crescer 5% este ano ou chegar a 6%, se alguma aceleração acontecer", avaliou o secretário de Política Econômica, Júlio Sérgio Gomes de Almeida. "Se a indústria chegar a 6%, o PIB pode alcançar 4,5%", acrescenta. E esse crescimento trará embutido um aumento de 9% no investimento medido pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que considera os gastos em máquinas e equipamentos e na construção civil.

Mesmo comemorando o resultado, Gomes de Almeida reconhece que o efeito China-câmbio está fazendo vítimas entre a indústria, e lista calçados, têxteis, mobiliário e vestuário como os setores mais afetados negativamente. "Nestes setores, há perdas na exportação e a importação está, sim, tomando espaço do produtor nacional", avalia o secretário de Política Econômica. "Essa dobradinha está fazendo estrago nestes quatro setores", reconhece, acrescentando, depois, o segmento de utensílios de metal como mais um setor afetado pela concorrência chinesa e pela valorização do real.

Apesar de admitir os efeitos perversos sobre setores importantes e intensivos em mão-de-obra, Gomes de Almeida descarta algum tipo de medida oficial para minimizar as perdas ou tentar evitar demissões nestes segmentos. "Não haverá renúncia fiscal a favor destes setores", afirmou, acrescentando que também a possibilidade de alguma ajuda via o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) está descartada.

"Isso não resolve", diz ele. A solução para estes setores, acrescenta, está no câmbio, que já está um "pouco melhor", diz Gomes de Almeida, um forte crítico da política monetária e cambial do governo antes de assumir o posto na equipe econômica. "E o Banco Central está pilotando", argumenta, fazendo referência aos leilões recentes que visaram evitar que a taxa de câmbio voltasse para perto de R$ 2.

Tudo que estes cinco setores - e mais algum que venha a sofrer mais claramente com a perda de marcado externo - terão do governo são ações na área da aduana e de negociações internacionais, diz Gomes de Almeida. É possível aumentar o controle das importações (como já tem sido feito em calçados e têxteis para evitar entrada de produtos com preços subfaturados, segundo ele) e minimizar o efeito China com negociações governo a governo, como foi feito no segmento de vestuário. "Os acordos nesta área são recentes, mas vão surtir efeito", avalia.

Para Gomes de Almeida, os dados da produção industrial de maio mostram que são infundadas as avaliações que vêem, na economia brasileira, sinais de desindustrialização da produção local, que levariam a uma "mexicanização" . "O forte aumento da produção de bens intermediários confirma que não estamos perdendo densidade produtiva", argumenta. Quando questionado se o dado de um único mês (maio) não seria pouco relevante para sustentar sua tese, rebateu dizendo que também as avaliações de "mexicanização" são baseadas em uma série muito curta de indicadores.

Na avaliação da equipe econômica, a trajetória da economia é de "crescimento". Gomes de Almeida diz que junho pode vir com queda na produção industrial, mas isso ocorrerá pelo efeito Copa do Mundo, que fez o mês ter apenas 18 dias úteis efetivos.

O aumento da renda do trabalho, a alta do salário mínimo e os programas de transferência de renda do governo federal darão sustentação ao crescimento econômico nos próximos meses, avalia o titular da SPE. Para ele, é errado dizer que o aumento do consumo está baseado apenas no aumento da renda decorrente de programas sociais que não geram crescimento e que, portanto, teriam pouca sustentação no futuro. "Está ocorrendo um processo forte de formalização da mão-de-obra e, além disso, entre os programas sociais, o apoio a agricultura familiar é um programa que gera ocupação", argumenta.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega comentou, ontem, durante entrevista no Palácio do Planalto, o resultado da produção industrial em maio - aumento de 1,6% sobre abril. "É expressivo e muito maior do que o mercado esperava", disse ele. "Tanto o consumo como a produção aumentaram em bens intermediários e bens de capital, o que mostra aumento do investimento no país", comemorou Mantega.

O ministro da Fazenda afirmou que, em 2006, vai ocorrer um crescimento vigoroso, puxado pela indústria e pelos serviços. "Estamos caminhando para algo acima dos 4% para o crescimento do PIB neste ano", garantiu. (Colaborou Arnaldo Galvão, de Brasília)