Título: O mais jovem presidente mexicano
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Fonte: Valor Econômico, 07/07/2006, Brasil, p. A10

Carisma não é um trunfo de Felipe Calderón. Mas o calvo advogado e tecnocrata mostrou-se sempre confiante no desenrolar de sua campanha eleitoral, ao mesmo tempo em que levantou continuamente dúvidas sobre seu enormemente popular adversário. Prestes a tornar-se o mais jovem presidente na história do México, Calderón, de 43 anos, representa sob muitos aspectos a nova classe média que floresceu no governo pró-iniciativa privada de Vicente Fox.

Embora ele pertença ao que muitos consideram o partido dos ricos, ele dirige um Volkswagen Golf 1993 e é um dos poucos destacados políticos do país que não acumulou fortuna pessoal durante uma carreira no governo.

Erguendo os braços e exibindo as palmas de suas mãos em cada comício, para mostrar que tem as "mãos limpas" e não é corrupto, Calderón pregou valores de livre mercado e estabilidade financeira, o que tocou o coração de eleitores indecisos da classe média, ainda desgastada pelas derrocadas financeiras que abalaram o México nas décadas de 70, 80 e 90.

"Esta vitória pareceu impossível para muita, muita gente, mas eu nunca aceitei a atitude derrotista", disse Calderón à agência de notícias Associated Press, à medida que os funcionários eleitorais somavam as atas de votação que ontem o apontavam como vencedor por estreitíssima margem.

Ele também se dirigiu aos milhões que votaram em seu rival, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, pedindo tempo para conquistar a confiança deles, e prometer "trabalhar para construir um México sem terríveis desigualdades", objetivo central do programa de López Obrador.

Calderón representa o partido no poder, mas ele não era o candidato preferido por Fox.

Praticamente um desconhecido até um ano atrás, ele continua frio à frente das câmeras e admite não passar uma imagem romântica como a do charmoso e popular Fox, que levou o Partido da Ação Nacional (PAN) à Presidência em 2000.

"Tenho uma personalidade um tanto seca. Mas o que aos olhos dos outros pode ser um defeito de personalidade, creio que se tornou uma virtude", disse ele. "Penso que o México, com tantos problemas, precisa uma liderança de personalidade, firme e exigente."

E embora tenha dedicado sua vida profissional quase inteira ao PAN, ele se diz o "filho desobediente" do partido, numa alusão bem-humorada a sua pouca idade e para estabelecer alguma distância de Fox, que não conseguiu implementar muitas das reformas que prometera, depois pôr fim a uma era de 71 anos consecutivos de governo por um só partido, o PRI.

Calderón cresceu no Estado de Michoacán, neto de sapateiro e filho de um professor primário que ajudou a fundar a Ação Nacional, em 1939. Seu pai concorreu a cargos eletivos pelo menos oito vezes, mas nunca venceu, o que não surpreende, pois o PRI não permitia que outros partidos vencessem.

"Então, por que está fazendo isso?" indagou um jovem Calderón a seu pai, que ele recorda ter-lhe respondido: "Se não o fizermos, ninguém mais o fará, e o México nunca mudará".

Calderón não pôde entrar para a Universidade Michoacán, que à época, segundo ele, estava tomada pela filosofia marxista, mas acabou indo para uma universidade privada e depois para a Universidade Harvard, onde fez mestrado em administração pública.

Aos 26 anos, Calderón foi eleito para a Câmara Municipal da Cidade do México e por duas vezes conquistou mandatos para o Congresso federal. Após concorrer sem sucesso para governador de Michoacán, em 1995, ele presidiu a comissão executiva da Ação Nacional durante três anos.

Nesse ínterim, casou-se com Margarita Zavala, também ex-deputada da Ação Nacional, com quem tem três filhos pequenos.

Em 2003, Fox nomeou Calderón ministro de Energia. Ele se demitiu pouco depois, quando o presidente o repreendeu por tornar públicas suas ambições presidenciais, apesar de uma pesquisa de intenção de voto o colocar apenas em 19º entre os possíveis candidatos.

Mas, um ano e meio depois, Calderón venceu a primária em seu partido, contra o candidato apoiado por Fox, e iniciou sua campanha bem atrás de López Obrador, o popular prefeito da Cidade do México, que deixou o cargo para disputar a Presidência, e de Roberto Madrazo, cujo Partido Revolucionário Institucional (PRI) controlou a Presidência de 1929 a 2000.

Mas Calderón conquistou eleitores com promessas de criar empregos incentivando investimentos privados, o que proporcionaria a milhões de mexicanos uma alternativa a entrar ilegalmente nos EUA em busca de trabalho. E ele insuflou temores no eleitorado ao qualificar López Obrador de adepto de teorias conspiratórias ao estilo de Hugo Chavez, o presidente socialista venezuelano.

"Dois anos atrás, estávamos basicamente 40 pontos atrás de Andrés Manuel", disse Maximiliano Cortázar, um alto assessor de campanha e amigo de Calderón há quase 30 anos. "Isso mostra quem é Felipe, como pessoa e como candidato. Ele é um lutador."