Título: Ensino médio pede mudanças com urgência
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Fonte: Correio Braziliense, 04/10/2010, Opinião, p. 26
O ensino é, sem dúvida, um dos grandes desafios dos governantes brasileiros.
Tanto os que estreiam no poder quanto os que retornam graças à vitória nas urnas não podem mais bancar o jogo do faz de conta. Precisam encarar a peleja com determinação, competência e apartidarismo.Oatraso da educação constitui uma das maiores tragédias nacionais. Seus reflexos não se restringem ao setor. Atingem a economia, a política, a saúde, o meio ambiente e o desenvolvimento do país.
Na década de 1970 do século passado, oBrasil deuumsalto olímpico.
Empenhou-se por universalizar o acesso à escola. A iniciativa, embora atrasada em relação às demais nações, tantodaEuropaquanto da América, constituiu resposta eficaz às exigências da sociedade que se urbanizara com espantosa rapidez e exigia as benesses oferecidas pela vida da cidade. Entre elas, a educação. No fim do milênio, o balanço exibiu dado contraditório.
A universalização das matrículas não se traduziu em democratização do conhecimento.
Em bom português: frequentar salas de aula não significa aprender.
Muitos, depois de 2, 3, 4 anos, não conseguem se alfabetizar ou fazer as quatro operações. Mais: há os que logram desenhar as letras e decifrar o código.Mas são incapazes de escrever ou entender um texto simples. São os analfabetos funcionais.
Para eles, anos de estudos não se refletem em bem-estar social ou profissional. A expectativa transformase em frustração.
A maior vítima do descaso e irresponsabilidade governamentais é o ensino médio. Com currículos defasados e sem oferta de opções, o curso funciona como ponte comtrajeto conhecido¿conduzir o estudante à universidade. São três anos que não formam profissionais nem cidadãos.
Apenas informam conteúdos úteis talvez para o vestibular, mas afastados das exigências da vida.
Ignoram que estamos no século 21¿protagonistas das maiores e mais rápidas mudanças registradas na história da humanidade.
Vem, pois, emboa hora o anúncio de que o ConselhoNacional de Educação (CNE) discute, a partir de hoje, novas diretrizes para o ensino médio.
Na agenda, o reforço de conteúdos tradicionais e a ampliação do leque de possibilidades dos alunos¿ com preparação profissional e formação ética. É importante, ao longo dos debates, teremmente que a Idade Média ficou há muito tempo para trás.Na eradainformaçãoedomundo globalizado, o desafio é preparar cidadãos com as competências exigidas pelo século 21. Entre elas, a capacidade de se comunicar com eficácia e de resolver conflitos.Decorar conteúdos passados não responderá a essas necessidades.