Título: Sadia faz oferta de compra da Perdigão
Autor: Rocha, Alda do Amaral
Fonte: Valor Econômico, 17/07/2006, Brasil, p. A4

Numa estratégia para enfrentar grandes concorrentes internacionais e uma eventual desnacionalização do setor de aves e suínos no Brasil, a Sadia faz hoje oferta pública voluntária para a aquisição de 100% das ações da Perdigão. A proposta prevê a aquisição de, no mínimo, 50% mais uma das ações da Perdigão, que se diz surpresa com a oferta. Mas o objetivo da Sadia é adquirir 100% das ações, para que a Perdigão possa ser incorporada, disse ao Valor o presidente do conselho de administração da Sadia, Walter Fontana Filho.

A Sadia está ofertando R$ 27,88 por ação da Perdigão, valor que equivale à cotação média dos papéis da empresa na Bovespa nos últimos 30 dias mais um prêmio de 35%. A oferta é válida até 24 de outubro. Os acionistas da Perdigão terão pouco mais de 90 dias para decidir se querem se desfazer de seus papéis. A intenção era anunciar a proposta na terça-feira, mas a alta das ações da Perdigão na semana passada - especialmente na sexta-feira - com indícios de vazamento da operação, fez com que a divulgação fosse antecipada para ontem.

Fontana negou que a oferta pelas ações da Perdigão seja "uma atitude defensiva" por conta da recente investida no Brasil da americana Tyson Foods, maior empresa de carnes do mundo. A companhia americana, que há cerca de cinco anos vem tentando entrar no país, negocia uma joint venture com a paranaense Globoaves, a maior produtora independente de pintos de corte do Brasil. Além disso, no fim de 2004, a também americana Cargill adquiriu o controle da Seara, e não esconde o desejo de crescer mais no Brasil.

"É uma atitude pró-ativa para aproveitar uma oportunidade que existe. Criar um grande grupo num setor que é estratégico para o Brasil", afirmou Fontana. Ele defendeu que "o Brasil precisa ter empresas fortes para fazer frente a restrições sanitárias, aos subsídios. Para participar da globalização é preciso ser grande".

Se concretizada a operação, a nova gigante de aves e suínos somará receita líquida de R$ 12 bilhões anuais, sendo 50% provenientes de exportações, e ficará entre as dez maiores empresas do país, segundo o Valor Data. Além disso, a empresa terá 26 unidades de abate de aves, suínos e peru e de processamento de carnes, um total de 81 mil empregados e 16 mil produtores integrados.

Segundo Fontana, a idéia de apresentar proposta pelas ações da Perdigão começou a ser estudada assim que a concorrente modificou seu estatuto e entrou no chamado Novo Mercado da Bovespa. A pulverização das ações pela Perdigão abriu caminho para a oferta da Sadia. O estatuto social elaborado pela Perdigão após a pulverização prevê que o interessado em comprar 20% ou mais das ações da empresa teria de estender a proposta aos outros 80%.

O diretor de relações com o mercado da Perdigão, Ricardo Menezes, disse que a oferta da Sadia surpreendeu porque a empresa "não está à venda, tem um plano estratégico de crescimento e está diluindo seus riscos entrando em mercados como lácteos". Ele admitiu, porém, que, quando a assembléia de acionistas da Perdigão decidiu pela pulverização no dia 8 de março deste ano, sabia-se que esse era "um risco do Novo Mercado". "Vamos esperar a reação dos acionistas. Se optam por um crescimento gradual, já que ao longo dos últimos anos a Perdigão cresceu 14% ao ano, ou se optam por vender", afirmou Menezes.

Conforme um analista de investimentos que pediu para não ser identificado, a operação corre o risco de ser rejeitada porque o valor proposto pelas ações da Perdigão - R$ 27,88 por ação - está abaixo do preço-alvo que a maioria dos bancos tem para os papéis da empresa. O valor fica abaixo das projeções de sete entre nove analistas listados na agência Bloomberg.

No caso de a Sadia não conseguir adquirir os 100% das ações da concorrente, os acionistas remanescentes da Perdigão receberiam papéis da Sadia, parte ações ordinárias e parte preferenciais, explicou Fontana. Ele observou que a Sadia está disposta a pagar pela totalidade das ações da Perdigão valor semelhante ao valor da Sadia em bolsa, pela cotação da última sexta-feira, de R$ 3,893 bilhões. Pelo total de 133,957 milhões de ações da Perdigão, a Sadia oferece R$ 3,723 bilhões.

Se a aquisição da Perdigão for concretizada, Fontana crê que em cerca de cinco anos poderia ser maior do que a Tyson Foods, que fatura US$ 26 bilhões e é a maior exportadora de carnes do mundo. Segundo ele, a aquisição da Perdigão faria a empresa subir para quarto lugar no ranking dos exportadores brasileiros - hoje é a oitava - , alcançando ainda o posto de segunda maior produtora de proteína animal do mundo, atrás apenas da Tyson. Com a compra da concorrente, o abate de aves da Sadia alcançaria 1,147 bilhão de unidades por ano, 25% do abate nacional. O abate de suínos corresponderia a 23%, atingindo 7,4 milhões de cabeças/ano.

O grande foco da Sadia com a oferta pelas ações da Perdigão é o mercado externo, apesar de todas as incertezas existentes hoje, como a queda da demanda por carne de frango no mercado externo por causa da gripe aviária e embargos de países, como a Rússia, à carne suína brasileira por causa da aftosa. "É arriscado [a eventual aquisição], mas acredito que as duas empresas juntas enfrentariam melhor a crise", disse Fontana, referindo-se a uma hipotética chegada do vírus letal da gripe aviária no Brasil.

A aposta da Sadia é que o mercado externo deve continuar crescendo no médio e longo prazo. Ainda conforme o executivo, numa eventual aquisição não há plano para fechamento de unidades nem cortes de funcionários. Pelo contrário, Fontana acredita que a gigante poderia até crescer fora do Brasil, com unidades em outros países. A Sadia já anunciou que vai construir uma processadora de carnes na Rússia.

No mercado interno, uma eventual compra da Perdigão pela Sadia deve ser avaliada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica, já que em algumas linhas de produtos, como presuntaria e pratos prontos, a participação no mercado supera 50%. Ensaiada há muito tempo pelas duas companhias, a união entre a Sadia e a Perdigão é tão emblemática para o setor de alimentos quanto foi, no segmento de bebidas, a fusão da Brahma com a Antarctica, anunciada em julho de 1999 e resultou na criação da AmBev. Na época, o Cade aprovou a fusão das cervejarias, mas impôs restrições ao negócio. As empresas tiveram de se desfazer da marca Bavaria e vender fábricas. A AmBev ficou com mais de 70% da produção nacional de cerveja. (Colaborou Talita Moreira)