Título: Fórum quer criar cartilha para enquadrar o produto
Autor: Rocha, Alda do Amaral
Fonte: Valor Econômico, 25/07/2006, Agronegócios, p. B12
O crescente debate em torno do impacto socioambiental da soja levou um grupo de empresas e instituições sem fins lucrativos a se organizar para a criação de uma carta de princípios para o plantio da chamada "soja responsável" no país. O Fórum Global sobre Soja Responsável (RTRS, em inglês) tem como meta elaborar critérios específicos para a soja, como já ocorre em outros setores, para garantir a preservação de áreas verdes e o cumprimento de leis trabalhistas.
Criado no início de 2005, o grupo conta atualmente com dez membros - banco ABN AMRO Real, Grupo André Maggi, Unilever, WWF, a rede varejista Coop Switzerland, a associação civil Guyra Paraguay , AAPRESID (associação argentina de produtores rurais), Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) e a ONG holandesa Solidariedad.
"É o mesmo espírito dos Princípios do Equador [exigências socioambientais para receber financiamento] , mas num estágio mais primitivo", explica Christopher Wells, superintendente de risco socioambiental do ABN AMRO Real.
Segundo ele, a cartilha com os preceitos a serem seguidos por produtores e compradores deverá ficar pronta só em dois anos. Não sairá antes devido à "politização da questão" no Brasil, que atraiu a militância das ONGs e muitas vezes atinge interesses particulares.
A primeira reunião do grupo ocorreu em Foz do Iguaçu, em março do ano passado. A idéia era fazer um "raio X" do crescimento da soja e suas implicações. Desde então, duas outras reuniões foram feitas - em Buenos Aires e São Paulo - para dividir experiências de várias regiões e países produtores. Cerca de 50 grupos e agricultores participaram do evento. A partir desses relatos, o RTRS começará a esboçar, na reunião do mês que vem, em Assunção, o documento.
"Não existe ainda o dever de casa para o setor agrícola, como existem para as áreas industrial e financeira", diz Wells. "Um dos princípios, por exemplo, será exigir o cumprimento das regras da OIT (Organização Internacional do Trabalho). Pode parecer banal, mas na hora de o Maggi comprar a soja, se descobrir que seu fornecedor cobra aluguel de um empregado, o que é proibido por lei, ele pode se negar a fechar negócio".
Embora o grupo seja internacional, o foco de atenção tem sido o Brasil. "Os EUA estão no limite de área para soja. Argentina tem mais um pouco, mas o Brasil tem muita terra - a Amazônia e o cerrado", diz Wells. "E é aí que os problemas ambientais estão em evidência".