Título: Royalties do petróleo viram cana-de-açúcar no norte fluminense
Autor: Góes, Francisco
Fonte: Valor Econômico, 25/07/2006, Especial, p. A12

O norte fluminense, uma das mais antigas regiões produtores de cana do Brasil, assiste ao bom momento da indústria sucroalcooleira no país sem aproveitar, no mesmo ritmo de outras áreas, o ciclo de alta dos preços de açúcar e álcool. Para não deixar passar a chance, produtores e municípios do Rio ligados à cana buscam saídas para enfrentar a baixa produtividade por hectare e uma oferta insuficiente para atender às oito usinas em operação no Estado, várias delas surgidas no fim do século XIX, ainda no Império.

Uma das ações que ganham força entre prefeituras do norte fluminense é o lançamento de políticas de fomento ao cultivo de cana sustentadas pelo dinheiro dos royalties do petróleo. Quissamã e Campos dos Goytacazes já têm programas do gênero. Cabo Frio começa a estudar a possibilidade de usar parte dos royalties do petróleo para criar um fundo de financiamento ao setor agroindustrial, e Carapebus, município vizinho a Quissamã, pretende retomar em 2007 seu programa de incentivo ao plantio de cana tendo como fonte o dinheiro dos royalties.

"Outras regiões produtoras de cana saíram na frente, mas o Rio está investindo. A situação é melhor do que era há três anos e há potencial de crescimento", diz Alberto Mofati, secretário da Agricultura do Estado. Ele afirma que o preço da terra para cana, no Rio, é até três vezes mais baixo que em outras áreas. Outra vantagem é a proximidade do centro de consumo. Segundo fontes do setor, hoje a oferta de açúcar e álcool do Rio é suficiente para atender menos de 20% do consumo estadual.

Neste mês, Campos dos Goytacazes, que responde por 60% da área de cana colhida no Estado, regulamentou decreto que cria o Fundo de Desenvolvimento da Cana-de-Açúcar (Fundecana), pelo qual a prefeitura disponibilizará em 2006 aos produtores R$ 5 milhões com juros fixos de 6% ao ano. Cada produtor pode tomar emprestado até R$ 50 mil com dois anos de carência e três anos para pagar. "Se o produtor quitar as parcelas em dia, recebe os juros de volta", diz Luiz Eduardo Crespo, presidente da Associação Fluminense dos Produtores de Cana (Asflucan).

A entidade vai gerir o fundo junto com o Fundecam (Fundo de Desenvolvimento de Campos) e o Banco do Brasil repassará os recursos. "Em quatro anos pretendemos investir R$ 25 milhões para aumentar a produção de cana", afirma Luiz Mário Concebida, secretário de Petróleo e Energia de Campos dos Goytacazes.

Frederico Paes, presidente da Cooperativa Agroindustrial do Estado do Rio de Janeiro (Coagro), uma antiga usina que foi assumida pelos produtores, diz que o agricultor precisa de financiamento a custo compatível, mas considera a iniciativa do Fundecana insuficiente: "R$ 5 milhões por ano é pouco", diz. A Coagro tem capacidade para moer 900 mil toneladas de cana por ano, mas processará 600 mil toneladas na safra 2006/07 - ociosidade de 33%. Do total, a Coagro produzirá 850 mil sacas de 50 quilos de açúcar e 20 milhões de litros de álcool hidratado. O açúcar da Coagro é vendido no norte do Estado e na região metropolitana do Rio, mas não entra na capital pois o açúcar de São Paulo é mais barato.

"Campos e toda a região [norte fluminense] estão ficando à parte do 'boom' verificado na indústria canavieira", diz Paes. Para ele, antes de abrir novas usinas no Estado é preciso aumentar a produção e expandir a área plantada com cana para eliminar a ociosidade das usinas existentes. "O importante é ter um programa de plantio e aumentar a produtividade. Se isso não ocorrer, vai abrir uma nova usina e fechar duas [em operação]", acrescenta Luiz Eduardo Crespo, da Asflucan.

Hoje a falta de matéria-prima em Campos - onde estão cinco das oito usinas do Rio - e em outros municípios do norte faz as empresas da região trabalharem com ociosidade média de 30% na moagem de cana e de 40% na produção de álcool e de açúcar. Os dados constam do Diagnóstico da Cadeia Produtiva de Cana do Rio de Janeiro, elaborado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e publicado este ano .

A escassez na oferta de cana também dificulta a instalação de novas destilarias de álcool e engenhos de açúcar no pólo fluminense. Enquanto dezenas de usinas de álcool e açúcar estão em construção no país, o Rio vive de promessas e expectativas. Não que empresas deixem o Rio fora dos planos, mas até hoje nenhum projeto saiu do papel. Em Campos, existe um projeto da empresa El Cana para uma usina para moer 1 milhão de toneladas de cana por ano em projeto integrado de plantio de 4,5 mil hectares, mas há no setor quem duvide que o projeto vá sair.

Na semana em que o Valor percorreu 1,2 mil quilômetros no norte fluminense, foi possível testemunhar o encontro de um grupo de executivos de uma empresa americana com o secretário de Desenvolvimento Econômico de Quissamã, Haroldo Carneiro da Silva. "Já conversaram conosco grupos dos EUA, Suíça e Mato Grosso", diz Silva. "Na hora que tivermos uma usina em Quissamã, os produtores serão estimulados a plantar mais", diz Wellington Costa, que tem 260 hectares plantados com cana no município.

Em 2002, Quissamã lançou o projeto de revitalização canavieira pelo qual a prefeitura aportou R$ 5,3 milhões dos royalties para o plantio. Os recursos permitiram o plantio de 2,3 mil hectares pertencentes à antiga Usina de Quissamã pela Cooperativa Mista dos Produtores Rurais local.

Os produtores contavam com a reabertura da usina, o que não aconteceu. "O município precisa de uma usina para moer toda a cana produzida localmente", reforça Norman Steiner, presidente da Cooperativa de Quissamã. Nesta safra, a cooperativa está vendendo toda a produção para a Agrisa, usina de Cabo Frio, que é capaz de esmagar 600 mil toneladas de cana por safra. Por falta de matéria-prima em Cabo Frio e arredores, a Agrisa busca cana em Quissamã (135 quilômetros de distância), subsidiando parte do frete.

"Até 2012 o plano é dobrar a capacidade de moagem da usina", diz Gilberto Giacommini, gerente agrícola da Agrisa. O planejamento inclui parcerias com produtores locais. Mas será preciso esperar para saber se o Rio conseguirá se transformar num pólo competitivo: "Campos está na lanterninha da indústria canavieira do país", atesta Aristóteles Cardoso, diretor superintendente da Usina Santa Cruz, de Campos, controlada pelo grupo José Pessoa.