Título: Atrasos impedem o Brasil de tirar proveito de sediar a Copa
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 28/03/2012, Opinião, p. A14
Desastrado e irresponsável, o "chute no traseiro" sugerido pelo secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, às autoridades brasileiras encarregadas da organização da Copa do Mundo de 2014 acabou ajudando o governo a desviar o foco do que realmente interessa: a inaptidão do país para tirar proveito do evento esportivo mais importante do planeta. Cinco anos se passaram desde a escolha do Brasil pela Fifa, sem que avanços consistentes no legado a ser deixado pela Copa sejam percebidos.
Nada é comparável à lentidão das obras de mobilidade urbana, que poderiam mudar o panorama de transportes das grandes cidades. Levantamento publicado pelo Valor (25/1) já mostrava que, entre setembro de 2011 e janeiro deste ano, pelo menos 19 obras descumpriram o cronograma previsto na matriz de responsabilidades da Copa e encontravam-se em estado de letargia. A Caixa Econômica Federal, principal agente financiador dos projetos, havia liberado apenas R$ 194 milhões dos R$ 5,3 bilhões de empréstimos pedidos por Estados e municípios. Pouquíssimo avançou desde então, como demonstra a absoluta estagnação dos projetos do monotrilho de Manaus e do metrô leve de Brasília, ambos sem perspectiva nenhuma de sair da gaveta.
A privatização dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Brasília deverá garantir a ampliação de terminais que hoje representam 30% da movimentação total de passageiros no país. Foi uma decisão acertada e um processo com mais êxitos do que falhas, mas a transferência desses aeroportos à iniciativa privada ocorreu tarde demais e foi feita às pressas. As futuras concessionárias provavelmente entregarão em tempo hábil o primeiro lote de obras previstas no contrato, cujo prazo é de 22 meses. No entanto, o calendário apertado não permite imprevistos. Além disso, a participação de 49% da Infraero - tanto no capital das concessionárias quanto no pagamento das outorgas - foi insuficientemente discutida, bem como os critérios para seleção das operadoras estrangeiras no Brasil. Sem tanta correria, a privatização dos aeroportos teria sido ainda mais bem-sucedida.
Até mesmo o andamento dos novos estádios suscita dúvidas. Faltam menos de 15 meses para a realização da Copa das Confederações, o evento teste do Mundial, e apenas uma das 12 arenas em construção ou em reforma tem mais de 50% das obras concluídas - o Castelão, em Fortaleza. O último relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o assunto, divulgado no fim de fevereiro, indica que a execução das obras havia atingido uma média de somente 26%. Segundo o órgão fiscalizador, os estádios podem transformar-se em "elefantes brancos" em quatro cidades-sedes - Natal, Manaus, Cuiabá e Brasília -, com "o risco da rentabilidade gerada pela arena não cobrir seus custos de manutenção".
Nada disso surpreende tendo em vista que nem sequer o marco jurídico para a realização do evento, a Lei Geral da Copa, foi aprovado. Na África do Sul, última sede do torneio, uma legislação semelhante estava em vigor com cinco anos de antecedência. A Rússia, que só receberá a Copa do Mundo em 2018, se comprometeu a aprovar sua lei geral ainda neste ano. Nenhum dos dois países têm o histórico de democracia e o mesmo grau de liberdade institucional de que goza o Parlamento brasileiro. Mas a demora na tramitação do projeto enviado pelo governo já superou os limites do bom senso.
O vaivém no texto da legislação, modificado inúmeras vezes nos gabinetes da Câmara dos Deputados e da Casa Civil, deixou sem permissão explícita a venda de bebidas alcoólicas durante o torneio.
Não é para tanta preocupação, avaliou o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, para quem "o brasileiro tem um jeito próprio de organizar e sempre entrega o que precisa". Para minimizar ainda mais o atraso, outras autoridades já disseram que "a Fifa deve mais ao Brasil do que o Brasil à Fifa". Embora seja uma afirmação subjetiva, talvez até encontre respaldo na popularização do futebol, mas não vem ao caso. Foi o Brasil que pediu para sediar a Copa do Mundo de 2014, sem nenhuma concorrência, e não o contrário. O legado do evento, por culpa da falta de planejamento do setor público, é cada vez mais duvidoso. Que ao menos as garantias dadas no passado sejam honradas, gostemos delas ou não, sob pena de desconstruirmos a base moral para qualquer nova candidatura.