Título: Setor de veículos puxa alta de 1,3% da produção industrial em fevereiro
Autor: Martins,Arícia
Fonte: Valor Econômico, 04/04/2012, Brasil, p. A4

Apoiada nos segmentos de veículos e extração, a alta de 1,3% da produção industrial na passagem de janeiro para fevereiro, feito o ajuste sazonal, foi mais forte do que o esperado pelo mercado, mas ainda não indica recuperação consistente do setor, segundo avaliação de economistas consultados pelo Valor. A expansão, dizem, foi influenciada principalmente pelo setor de caminhões, maior responsável pela queda de 1,5% da produção (dado revisado) em janeiro.

O cenário projetado para o primeiro trimestre é de estabilidade, já que o setor de automóveis comerciais e leves ainda patina e o ciclo de redução dos juros, que vêm sendo cortados desde agosto do ano passado, deve ter efeito pleno sobre a atividade econômica somente no segundo semestre.

Entre janeiro e fevereiro, 18 dos 27 ramos analisados na Pesquisa Industrial Mensal) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aumentaram sua produção. A elevação de 1,3% foi o melhor resultado nessa base de comparação desde fevereiro de 2011, quando a indústria havia crescido 2,2%. O principal impacto positivo veio do segmento de veículos automotores, cuja atividade aumentou 13,1% no período, na série dessazonalizada, após o tombo de 31,2% em janeiro.

Na comparação com igual mês do ano anterior, a produção caiu 3,9%, - a sexta queda consecutiva e a taxa negativa mais intensa desde setembro de 2009 (-7,6%). O resultado de fevereiro teve influência da elevada base de comparação, já que em fevereiro do ano passado o total da indústria mostrou crescimento de 7,5% nesse tipo de confronto, e do efeito calendário, uma vez que fevereiro de 2012 teve um dia útil a menos que igual mês do ano anterior.

No acumulado em 12 meses terminados em fevereiro, a retração é de 1% em relação ao período imediatamente anterior. Já no acumulado do ano comparado a igual período do ano anterior, a produção caiu 3,4%.

"O que puxou a produção para baixo em janeiro puxou para cima em fevereiro", diz Thovan Tucakov, da LCA Consultores. Cálculos dessazonalizados pela consultoria com base na pesquisa do IBGE mostram que a produção de caminhões caiu 70,1% entre dezembro e janeiro e, em fevereiro, avançou 94,5% sobre o mês anterior. No primeiro mês do ano, a indústria de caminhões paralisou parcialmente suas atividades para se adequar às novas regras de emissões.

Para o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rogério César de Souza, o dado de fevereiro não indica "nem desastre, nem retomada". Ele pondera, no entanto, que a produção daquele mês ficou 3% abaixo do nível de setembro de 2008, mês que antecedeu a piora da crise. "A indústria não conseguiu manter seu nível de produção pré-crise e ainda está em tendência de queda", avalia.

Segundo Thiago Carlos, da Link Investimentos, a alta de 9,3% da indústria extrativa também teve efeito positivo sobre a produção em fevereiro - após os problemas enfrentados pela indústria de minério de ferro em janeiro com as chuvas em Minas Gerais - e, por estar concentrada em alguns segmentos, não indica retomada do crescimento industrial. "É uma indústria ainda muito fraca. Não dá para falar em recuperação", diz, ressaltando que, no primeiro bimestre de 2012, a produção encolheu 3,4% frente o mesmo período de 2011.

O economista Fabio Ramos, da Quest Investimentos, projeta alta de 0,3% para a produção em março na série livre de influências sazonais. Se sua estimativa for confirmada, calcula Ramos, a indústria encerrará o primeiro trimestre do ano com queda de 0,17% sobre o trimestre anterior, feito o ajuste sazonal, após retração de 1,5% nessa base no último quarto de 2011. "A queda estaria se estancando. É um resultado bom quando vindo de recuos sucessivos", diz.

Tucakov aguarda a divulgação de mais dados de março para estimar a produção do mês, mas acredita que o número será novamente distorcido pelo setor de veículos.