Título: Cresce crítica à austeridade na UE
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Fonte: Valor Econômico, 04/04/2012, Internacional, p. A13
A Europa está implementando o aperto de cinto fiscal em meio a crescentes críticas de economistas e de dirigentes políticos de que essa estratégia está comprometendo a frágil economia da região.
A discussão ingressa numa fase decisiva, num momento em que a Europa oscila à beira de uma nova recessão. A contração do setor industrial em março se estendeu desde a periferia mediterrânea até potências como Alemanha e Holanda, segundo pesquisas do setor. O desemprego subiu para 10,8% na zona do euro em fevereiro, nível recorde na era do euro, disse esta semana o departamento de estatística da União Europeia (UE).
O ministro da Fazenda da Espanha, Luis de Guindos, reclamou esta semana que seu país está "entre a cruz e a espada", pois os mercados financeiros esperam que ele reduza o déficit público, ao mesmo tempo em que o efeito da austeridade sobre a economia pode minar a confiança do investidor.
O primeiro-ministro da Itália, Mario Monti, e a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, defenderam a adoção de políticas mais favoráveis ao crescimento nas economias mais saudáveis da Europa, a fim de neutralizar os efeitos da profunda retração fiscal observados na periferia da zona do euro.
Em meio ao temor de deterioração das perspectivas econômicas da Itália, o ministro da Indústria, Corrado Passera, disse ontem que seu governo não vai reduzir ainda mais os gastos, e acrescentou: "Com austeridade não se cresce."
Até agora, essas vozes não estão comovendo os players mais fortes da zona do euro: o Banco Central Europeu (BCE) e a Alemanha. Eles continuam a insistir que a austeridade para todos, associada a reformas estruturais de longo prazo das economias, é a único modo de pôr fim à crise da dívida na região.
O BCE, que deverá, segundo se prevê, manter inalteradas suas taxas de juros na reunião mensal de hoje, apesar do enfraquecimento da economia, argumenta há muito que a austeridade pode aumentar o crescimento ao tranquilizar as empresas e consumidores sobre a saúde financeira dos governos.
"A consolidação poderá inspirar confiança e fazer, efetivamente, a economia crescer", disse o diretor do Bundesbank (o BC alemão), Jens Weidmann, membro do conselho diretor do BCE, na semana passada. Ele afirmou que o temor dos críticos com os efeitos da austeridade são "exageradas", acrescentando: "De qualquer maneira, não há muitas alternativas... A única abordagem promissora é cortar para sair do endividamento".
Até mesmo os críticos da austeridade reconhecem que alguns países endividados, diante dos custos altos e voláteis da tomada de empréstimos nos mercados financeiros, não têm alternativa. Espanha e Itália poderão, diante disso, ter de se curvar à pressão dos mercados e reduzir seus déficits, mesmo arcando com um pesado custo econômico, para demonstrar que levam a sério a disciplina fiscal, dizem economistas.
Mas outros países, como Holanda e França, também estão sendo pressionados pelas autoridades da UE a diminuir depressa seus déficits, apesar dos baixos custos da tomada de empréstimos. Muitos economistas dizem que eles correm o risco de imitar desnecessariamente a austeridade restritiva ao crescimento imposta a países como Grécia e Portugal, que perderam o acesso aos mercados.
O FMI e outros argumentam há muito que a austeridade compromete o crescimento, pelo menos no curto prazo. Agora, um crescente número de economistas diz que, para muitos países, a austeridade não é um modo eficaz de equilibrar o orçamento no longo prazo.
Brad DeLong, professor de economia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, pesquisou, junto com Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, os efeitos da política fiscal.
Seus resultados: numa economia deprimida que pratica baixas taxas de juros, o aperto fiscal que prolonga uma recessão solapa a arrecadação fiscal, neutralizando os benefícios de ordem fiscal promovidos pelos cortes iniciais. "Essa foi nossa descoberta assombrosa quando começamos a fazer as contas seriamente" disse DeLong.
Em países com crédito a baixo custo, como EUA, Alemanha, França e Holanda, o nível de atividade da economia perdido em decorrência das medidas de austeridade torna a dívida pública mais difícil, e não mais fácil, de suportar.
Autoridades do governo holandês estão estudando a possibilidade de apertar o orçamento, apesar das sombrias perspectivas econômicas e do nível relativamente baixo da dívida pública. O rendimento dos bônus holandeses de 10 anos é de 2,3%, quase o mesmo que o dos títulos dos EUA. Por seu lado, a França está defendendo aumento dos impostos e redução dos gastos apesar de tomar recursos por dez anos por cerca de 2,8%.
A austeridade é "um grande erro nesses países com custo tão baixo de tomada de empréstimo. É hora de investir", afirmou Paul de Grauwe, professor de economia da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica.
O Reino Unido, membro da UE que não aderiu ao euro, também vem promovendo um ajuste fiscal desde que embarcou, em 2010, num plano plurianual destinado a reduzir em dezenas de bilhões de libras esterlinas os gastos com bem-estar social e outros. Alguns analistas dizem que as medidas fortaleceram a confiança do mercado financeiro e mantiveram baixos os custos de financiamento.
No entanto, o Reino Unido adotou um ritmo mais lento de mudanças que outros países europeus às voltas com grandes déficits públicos. O déficit britânico, embora tenha caído em relação a dois anos atrás, ainda está em torno de 8% do Produto Interno bruto (PIB).
O Reino Unido dispõe ainda de instrumentos de política econômica destinados a impulsionar o crescimento que faltam aos países da zona do euro. A desvalorização da libra tornou suas exportações mais competitivas. O Banco da Inglaterra, o BC do país, compensou os efeitos da austeridade fiscal com a compra de grandes volumes de bônus governamentais, para manter as taxas de juros baixas.
"Mesmo com tudo isso, não estamos conseguindo gerar crescimento", disse o economista Richard Barwell, do RBS de Londres. "Nosso caso deve representar uma advertência para a Europa."