Título: Vendas da indústria decepcionam no primeiro trimestre
Autor: Lamucci, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 09/04/2012, Brasil, p. A8

A indústria teve mais um desempenho decepcionante no primeiro trimestre de 2012, segundo relato de líderes empresariais de setores importantes e estimativas de economistas que acompanham de perto o segmento. A dificuldade de concorrer com produtos importados e o mau momento da exportação de manufaturados, num cenário de real forte, prejudicaram a atividade industrial, também afetada pelo fato de que alguns segmentos ainda ajustaram estoques nos primeiros meses do ano.

Fabricantes de setores como máquinas e equipamentos, produtos elétricos e eletrônicos e papelão ondulado relatam um primeiro trimestre sofrível, em alguns casos com retração no volume produzido. A expectativa é que haja alguma uma melhora mais consistente no segundo semestre, quando entra em vigor grande parte das medidas do governo de estímulo à indústria e o efeito da queda dos juros será mais intenso.

O vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Fernando Bueno, acredita que o primeiro trimestre foi "levemente" negativo na comparação com o mesmo período de 2011. "A perspectiva do pacote para a indústria teve impacto negativo no curto prazo, já que empresários optaram por aguardar medidas, como o corte da taxa de juros do BNDES, e adiaram encomendas." Segundo ele, março deverá reverter o crescimento de 0,9% acumulado entre janeiro e fevereiro, na comparação com o primeiro bimestre de 2011.

Bueno diz que os pedidos em carteira para o setor de máquinas e equipamentos foram 20% menores em dezembro do ano passado, na comparação com dezembro de 2010. Ele não identifica uma reação do setor no começo deste ano. "Se terminarmos o ano no empate com 2011, teremos uma vitória."

Para Bueno, o principal motivo para esse pessimismo está no fato de que muitos industriais já deixaram de comprar máquinas no exterior para importar diretamente o bem de consumo industrializado. Apesar do câmbio, foram as exportações, que representam 26% do faturamento do setor, que sustentaram o crescimento no primeiro bimestre, diz ele. "No mercado interno, o resultado do ano já está negativo."

Bueno acredita que o pacote de incentivo anunciado pelo governo dará um fôlego para o setor. Ele espera que, no melhor dos cenários, a recuperação tome forma no segundo semestre de 2012. "Até lá, o pacote não terá efeito claro."

O Polo Industrial de Manaus (PIM) também teve um primeiro trimestre fraco, segundo o assessor econômico da presidência da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Gilmar Freitas. Ainda sem números fechados, ele estima que o faturamento tenha caído de 7% a 10% em relação ao primeiro trimestre de 2011. A produção, por sua vez, deve ter recuado 3% no período, diz. A queda mais forte do faturamento, na comparação com o volume de produção, ocorreu porque houve queda de preços, devido à a forte concorrência do importado, segundo Freitas. "O câmbio valorizado tem prejudicado a competitividade das empresas."

De acordo com Freitas, o setor de eletroeletrônicos e o metal-mecânico (que trabalha principalmente fornecendo insumos para as empresas do PIM) tiveram um desempenho fraco no primeiro trimestre. O segmento de motocicletas vai um pouco melhor.

Ele é mais otimista quanto às perspectivas para o resto do ano. Acredita em crescimento mais forte a partir do segundo trimestre e espera que o faturamento de 2012 repita os US$ 41 bilhões do ano passado. "Em relação ao próximo trimestre, acreditamos numa melhora, com a interferência que o governo deve fazer para melhorar o câmbio e diminuir a valorização do real."

A concorrência do produto estrangeiro e as exportações fracas também atrapalham a indústria elétrica e eletrônica, segundo Humberto Barbato, presidente da Abinee (a associação do setor). Ele ainda não tem números oficiais sobre o resultado do primeiro trimestre, mas acredita que o volume produzido recuou em relação ao mesmo período do ano passado, ao passo que o faturamento deve ter ficado no mesmo nível. Segundo Barbato, o fato de o faturamento ir melhor que a produção se deve ao aumento das importações, o que permite a algumas empresas melhorar a rentabilidade à custa de reduzir a fabricação no país.

Entre os setores filiados à Abinee, Barbato diz que as empresas que produzem celulares e as que fabricam equipamentos de geração, distribuição e transmissão de energia elétrica mostram mau desempenho. As primeiras têm problemas com a concorrência importada, enquanto as outras têm sofrido com a proximidade do fim das concessões do setor elétrico em 2015, o que tem feito algumas empresas adiarem investimentos. Para ele, a expectativa de retomada mais forte fica para o segundo semestre, quando entram em vigor as medidas que aliviam a carga tributária para alguns segmentos da indústria e o impacto da redução dos juros será mais forte.

No setor de papelão ondulado, o primeiro trimestre teve um desempenho aquém do esperado para o ano, diz Ricardo Trombini, presidente da ABPO, a associação do setor. Entre janeiro e fevereiro, a expedição do produto cresceu 1,28% na comparação com igual período do ano passado, abaixo dos 2,5% a 3% previstos para 2012.

A expectativa de Trombini é que em março tenha havido uma aceleração, com o desempenho do mês 1,5% melhor que em março de 2011. "Depois de março é que vamos sentir uma retomada da indústria. No primeiro trimestre, ainda estávamos saindo do vale de produção e agora começa um reforço da atividade."

A previsão é que o trimestre apresente um crescimento de 1,5% na comparação com igual período do ano passado. "Nossa projeção de crescimento já leva em consideração as medidas que o governo vem tomando para fortalecer a indústria. Todos foram surpreendidos com o arrefecimento do mercado no fim do ano passado."

Para ele, o câmbio tem grande relevância para que medidas como a desoneração da folha de pagamento surtam efeito. "Não adianta reduzir alguns impostos, se não tivermos um câmbio que permita ter competitividade para exportar e combater os importados no mercado interno."