Título: Sumiço dos líderes gera inquietações em Cuba
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Fonte: Valor Econômico, 04/08/2006, Internacional, p. A12

Quatro dias depois de Fidel Castro entregar temporariamente o poder em Cuba, o sumiço de alguns líderes do país causa inquietação e especulações quanto ao que estaria ocorrendo nos bastidores. Nem Raúl Castro, irmão de Fidel que assumiu o governo, nem o chanceler Felipe Pérez Roque aparecem em público desde segunda.

Nenhuma foto ou imagem de TV de Fidel, de 79 anos, foi divulgada desde que ele se internou para o que oficialmente se divulgou ser uma cirurgia intestinal. Ontem, em mensagem nebulosa, o jornal oficial do Partido Comunista, o "Granma", publicou um antigo discurso de Raúl Castro, 75, dizendo que o único herdeiro de Fidel era o próprio partido. Indiretamente, pode-se inferir que não há um herdeiro pessoal.

Apesar de o discurso publicado na primeira página parecer uma tentativa de afastar o temor de que o afastamento, eventualmente definitivo, de Fidel após 47 anos de governo traga caos para Cuba, ele pode levantar dúvidas entre muitos dos cubanos, que desejam ver Raúl se pronunciar em público.

No discurso de 14 de julho para oficiais das Forças Armadas, publicado pelo "Granma" no dia seguinte, Raúl afirmou: "Apenas o Partido Comunista pode ser o herdeiro merecedor da confiança que os cubanos depositaram em seu líder."

Apesar de Ricardo Alarcón, presidente do Congresso e íntimo do líder cubano, ter dito a um programa de rádio dos EUA que Fidel estaria "bastante alerta e consciente" e que descansava, os cubanos mostram-se ávidos por informações.

"Por que Raúl ainda não veio a público fazer uma declaração? É disso que precisamos", afirmou à agência de notícias Reuters um entregador que não quis ter a identidade revelada. "Há uma calma terrível pairando sobre o país."

"Não sabemos o que está acontecendo. Estamos esperando que Raúl fale", disse Vilma Gutiérrez, vendedora de hortifrutigranjeiros subsidiados e mãe de três filhos. No bairro em que mora em Havana, distúrbios ocorreram em 1994, durante a crise econômica que se seguiu ao colapso da União Soviética. "As pessoas estão se mantendo caladas. Ninguém sabe o que vai acontecer", afirmou Gutiérrez.

Percebe-se um pequeno aumento da presença da polícia em algumas partes mais pobres da capital cubana. Organizações de bairro ligadas ao Partido Comunista ativaram "os grupos de resposta rápida" usados para sufocar os distúrbios.

Alguns cubanos com parentes nas forças de segurança disseram que os militares e policiais foram mobilizados nos quartéis e nas delegacias como precaução.

Nos EUA, um dos principais grupos de exilados cubanos pediu que os militares da ilha caribenha estabeleçam um governo provisório para "acabar com a ditadura dos Castro". O presidente George Bush disse estar "observando de perto" a situação de Cuba. Bush chamou os cubanos a "trabalhar por uma mudança democrática". Foi a primeira vez que o presidente fez ele mesmo uma menção à situação cubana desde o início da semana.