Título: GP-M desprezado
Autor: Pavini, Angelo
Fonte: Valor Econômico, 15/08/2006, EU & Investimentos, p. D1

O Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) está sendo aos poucos abandonado pelo mercado financeiro e por investidores como opção de indexação de aplicações e contratos de longo prazo. Derivado do mais antigo índice de preços do país, o IGP-DI da Fundação Getúlio Vargas, o IGP-M perde espaço para o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), calculado pelo IBGE e adotado pelo governo como referencial para as metas de inflação. As carteiras atreladas ao IGP-M representam hoje R$ 615 milhões, para R$ 5,6 bilhões em dezembro de 2002, diz Marcelo D'Agosto, sócio do site Fortuna. As NTN-C, que eram 83% da parcela de títulos indexados à inflação na dívida pública em 2002, hoje representam 30% dessa fatia. Nas debêntures emitidas pelas empresas, o IGP-M foi substituído pelo CDI e até contratos de aluguel já estão se bandeando para o INPC, irmão mais velho do IPCA, também calculado pelo IBGE.

Criado nos anos 80 em parceria com a Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro (Andima), que precisava de um índice divulgado no último dia útil do mês para corrigir as aplicações no dia 1º, o IGP-M sofre hoje com o que foi seu principal atrativo quatro anos atrás: a ligação com a cotação do dólar. Com a moeda americana em baixa nos últimos três anos, a variação do índice despencou e levou junto a rentabilidade dos investidores. Em 12 meses, o IGP-M acumula variação de 1,39%, para 3,97% do IPCA. Neste ano, os papéis indexados ao IGP-M, conforme o Índice de Mercado Andima (IMA) série C, acumulavam até dia 11 rendimento médio de 8,43%, para variação de 11,81% do IMA-B, que reflete as NTN-Bs, papéis indexados ao IPCA, e 9,56% do CDI.

A decisão do governo de reduzir o endividamento em dólar acabou ricocheteando nos papéis indexados ao IGP-M. Criados para refletir a economia brasileira, os IGPs em geral têm forte influência dos preços no atacado (IPA), que representam 60% do cálculo. Os preços no varejo (IPC) respondem por 30% e os da construção civil (INCC), por 10%. Como o dólar tem forte impacto nos preços das empresas, qualquer movimento da moeda americana acaba afetando os IGPs.

A diferença entre o IGP-DI e o IGP-M está no período de coleta de dados, de 1 a 30 de cada mês no primeiro caso e de 21 a 20 no segundo. Já o IPCA, que reúne apenas preços no varejo e é pesquisado em todo o país, apresenta oscilações mais comportadas.

A decisão do Tesouro de deixar o IGP-M de lado tornou-se mais forte há dois anos e foi favorecida pela queda da rentabilidade dos papéis, diz Reinaldo Le Grazie, sócio da gestora independente Nitor Investimentos. "O Tesouro fez um trabalho para convencer os fundos de pensão para que trocassem suas metas de rentabilidade do IGP-M para o IPCA ou INPC e, como o novo indexador está com rentabilidade maior, a troca está mais fácil", explica. Além disso, com o Tesouro parando de emitir esses papéis, houve uma redução da liquidez dos títulos. "E o mercado caminha para os papéis mais líquidos."

Segundo Grazie, a convergência entre os IGPs e os índices ao consumidor - como o IPCA -, que normalmente ocorre após alguns meses, demorou anos para ocorrer depois da forte alta do dólar em 2002. E, quando finalmente veio, a queda do IGP-M foi ampliada pela queda do dólar, tornando o índice negativo por vários meses, assustando muitos investidores.

Ao emitir somente papéis em IPCA, o Tesouro acaba influenciando as emissões privadas, que têm por referência o título público e isso atrapalha a indústria de IGP-M, diz Alfredo Moraes, presidente da Andima. "E não vejo o Tesouro mudando estratégia, ao menos no curto prazo". Para Moraes, a tendência é que o mercado financeiro fique com um indexador só. "Hoje o IGP-M ainda é utilizado em contratos de aluguel ou entre empresas, mas nos contratos financeiros é difícil ter espaço para dois com a liquidez que temos", afirma.

Moraes alerta, porém, que não dá para dizer que preferência pelo IPCA é definitiva. "Hoje as previsões de inflação estão comportadas, o ambiente é previsível, mas em outros cenários, de instabilidade econômica, o IGP-M pode voltar a ter atrativo", diz.

Com o crescimento da oferta de NTN-B pelo Tesouro, o mercado acaba criando novos instrumentos e usando mais os títulos indexados ao IPCA, explica Mario Schalch, sócio gestor da Neo Investimentos. Outro motivo para os gestores optarem pelo indexador é que o comportamento do IGP-M é mais difícil de prever do que o do IPCA. "Principalmente por conta dos preços no atacado, que são bastante voláteis, fica difícil montar premissas e fazer testes de estresse, o que dificulta estimar o valor do papel", afirma Schalch. A gestora trocou os títulos em IGP-M pelos em IPCA.

As perdas do IGP-M no ano passado assustaram os donos de imóveis e muitos agora estão mudando o indexador de seus contratos de locação para outros índices, como o INPC ou o IPC da Fipe, afirma Roseli Hernandes, gerente de locação e vendas da Lello. "O mais comum é o IGP-M, mas algumas empresas e proprietários optaram por mudar este ano", afirma. Ela estima que a parcela em IGP-M está hoje em 70% dos contratos de aluguel, percentual que era de 100% há um ano. O maior número de mudanças ocorreu em abril, quando o acumulado do IGP-M em 12 meses usado para correção dos contratos caiu 0,92%, e em maio, quando o recuo ficou em 0,33%. "Mas a escolha é meio aleatória, o proprietário não entende muito do índice e procura o que ficou maior", diz.

Grandes investidores interessados em aplicar em imóveis já com contrato de aluguel firmado com um banco, por exemplo, também estão trocando o IGP-M pelo IPC da Fipe nos contratos de cinco anos, diz Eduardo Goldstein, diretor da EG Negócios, intermediadora de negócios imobiliários.