Título: Condenação internacional
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Valor Econômico, 13/03/2012, Mundo, p. 16
Repulsa, consternação e a sensação de que é preciso fazer algo imediatamente para deter o horror. A comunidade internacional reagiu dessa forma a mais uma matança cometida pelas forças de Bashar Al-Assad. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, acusou o ditador sírio de "cinismo", ao lançar os ataques, em dois bairros da cidade de Homs, enquanto se reunia com enviados da Liga Árabe e da Organização das Nações Unidas (ONU), em Damasco.
"Rechaçamos qualquer equivalência entre os assassinatos premeditados pelo aparato militar de um governo e as ações dos civis sob assédio levados à legítima defesa", afirmou a chefe de diplomacia dos EUA, ante o Conselho de Segurança, que se reuniu ontem e não chegou a um consenso. "A horrorosa campanha de violência da Síria tem chocado a consciência do mundo", emendou Hillary.
O ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan considerou a situação "inaceitável". "A morte de civis deve cessar imediatamente", alertou, após o encontro com Al-Assad. "As autoridades sírias devem responder por seus atos na Justiça internacional", defendeu o chanceler francês, Alain Juppé. O novo massacre fez com que o opositor Conselho Nacional Sírio mudasse o tom. O órgão divulgou um comunicado por meio do qual pediu, pela primeira vez, "uma intervenção militar internacional e árabe urgente" e o estabelecimento "de uma zona de exclusão aérea". Por sua vez, o diplomata brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro — presidente da Comissão de Investigação da ONU para a Síria — apresentou o segundo relatório ante o Conselho de Direitos Humanos, em Genebra, e qualificou de "desesperadora" a situação dos civis. Em entrevista ao Correio, ele alertou que a militarização do conflito agravaria a crise (leia o Duas perguntas para).
A mais recente carnificina em Homs foi precedida por dois dias de ataques aos bairros de Karm Al-Zeitoun, Al-Adawiya e Ashira. Os homens leais a Al-Assad usaram morteiros e tanques, provocando a fuga de várias pessoas. Os corpos de 50 civis — incluindo 26 crianças e 21 mulheres — que não puderam escapar de Karm Al-Zeitoun e de Al-Adawiya começaram a chegar ao hospital de campanha instalado no distrito de Khaldiyeh, por volta da zero hora de ontem (19h de domingo, em Brasília). "Foi um massacre bárbaro e brutal", contou ao Correio o ativista sírio Gyath Saleh (nome fictício), 32 anos, que esteve no local. "Eu vi mulheres e crianças assassinados a facadas. Homens foram carbonizados", acrescentou. Saleh disse ter ficado em choque ao deparar com crianças decapitadas. "Uma menina de 14 anos tinha sinais de estupro."
A matança começou ao meio-dia de anteontem. "As milícias Chabbiha, apoiadas por tropas, invadiram os bairros. Os tanques dispararam morteiros. Depois, os milicianos e soldados entraram nas casas. "As crianças foram abatidas a faca. Os homens e mulheres, colocados em uma pequena sala e baleados. Os chabbiha queimaram tudo", descreveu Saleh. De acordo com o ativista Waleed Fares, 25 anos, 3 mil milicianos e soldados participaram dos atos de selvageria que se estenderam para outros bairros. "No distrito de Al-Adawyia, há casas que continuam queimando com gente dentro", relata. Morador da região central de Homs, ele descreve uma crise humanitária. "As casas estão lotadas. Há pouca comida, não temos eletricidade e falta água. Estamos com medo. Só queremos a liberdade."
Relatório No relatório apresentado ontem, Paulo Sérgio Pinheiro atesta que muitas das violações dos direitos humanos registradas na primeira fase de investigação não cessaram. "Elas incluem o uso da força excessiva, detenções e prisões arbitrárias, desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais, tortura, violência contra crianças, restrições à liberdade de expressão e de movimento", comentou o diplomata.
Pelo fim da "licença para matar" Cerca de 50 ex-dirigentes políticos, ganhadores do prêmio Nobel da Paz e intelectuais, pediram ao Conselho de Segurança da ONU para "retirarem a licença para matar" do ditador sírio, Bashar Al-Assad, em uma carta ao diretor publicada ontem pelo Financial Times. Os 47 signatários, entre eles o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, a prêmio Nobel guatemalteca Rigoberta Menchú e o escritor italiano Umberto Eco, denunciam as diferenças reinantes nesse organismo impediram uma resposta conjunta à crise. "As divisões entre a comunidade internacional proporcionaram ao governo de Al-Assad uma licença para matar. Esta licença deve ser retirada", afirmam. Os autores da carta também pedem à Rússia "que se una aos esforços coletivos para restaurar a paz e a estabilidade na Síria".
Jornalista é enterrada em Nova York Centenas de pessoas participaram, ontem, em Oyster Bay, Long Island, perto de Nova York, do funeral da jornalista norte-americana Marie Colvin, morta na Síria em 22 de fevereiro. Ela foi lembrada como uma mulher que "acreditava na vida". Rupert Murdoch, proprietário do Sunday Times para o qual trabalhava Colvin, esteve presente na cerimônia. O caixão com o corpo da jornalista foi recebido ao som de uma gaita, na igreja católica St. Dominic, onde foi celebrada a missa de corpo presente.