Título: Empresários devolvem "desafio" para Mantega
Autor: Galvão, Arnaldo e Leo, Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 17/08/2006, Brasil, p. A7
Os empresários brasileiros acham que o governo tem tarefas a cumprir antes que o setor privado possa aceitar o desafio lançado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, na noite de terça-feira, durante evento de lançamento do anuário "Valor 1000", que premiou as melhores companhias em 27 setores. No evento, Mantega convocou os empresários para que ampliem o investimento produtivo.
Para Mantega, neste momento em que a "saúde da economia brasileira está recuperada", estão dadas "as condições para o pleno exercício da arte de investir, produzir e vender". Para ele, já está em curso um ciclo de desenvolvimento, mas sua consolidação exige que se comece, "o quanto antes, um novo ciclo de investimento", focado na ampliação da capacidade.
O ministro listou a melhoria nos fundamentos da economia, destacando a estabilidade de preços (inflação de 4% ao ano), a responsabilidade fiscal (há oito anos o país produz superávit primário acima de 3%) e a redução da vulnerabilidade externa. Junto com essa conquista da estabilidade macroeconômica, Mantega argumentou que há um novo modelo de crescimento em curso, que conjuga alta do Produto Interno Bruto (PIB) com inclusão social e queda da desigualdade.
Agora, para o ministro da Fazenda, "o desafio econômico fundamental do Brasil é aumentar o investimento de modo tal que sejamos capazes de romper a barreira dos 5% de crescimento do PIB e sustentá-lo por longo espaço de tempo". O governo, argumentou, tem adotado medidas importantes para reduzir o custo do investimento, mas o papel mais importante caberá à iniciativa privada. "É nisso que penso quando falo em recuperar o ´espírito animal´ do empresário brasileiro. É preciso resgatar a ousadia, sobretudo a ousadia no investir."
"Também lanço um desafio ao governo para que ele faça sua parte", reagiu o presidente da Distribuidora Rio Negro, Carlos Loureiro. O empresário se refere aos investimentos em infra-estrutura, como portos, estradas e energia elétrica. Loureiro, que dirige uma das empresas premiadas pelo "Valor 1000", afirma que concorda com Mantega que o maior desafio do país e do próximo governo é aumentar o investimento para garantir um crescimento mais vigoroso da economia.
Ele ressalta que há obras que dependem apenas do governo. "Se o Brasil tivesse crescido 5% nos últimos quatro anos, faltaria energia elétrica", diz. Para o empresário, o governo precisa investir em infra-estrutura ou criar condições para que a iniciativa privada assuma esse papel, deslanchando as parcerias público-privadas (PPP). "Nenhum empresário que percebe a demanda deixa de investir."
Antes de aumentar os investimentos privados na produção, vários fatores - que ainda estão falhos - precisam ser analisados, diz o presidente da Alpargatas, Márcio Utsch. Um deles é o crescimento sustentável futuro do país. "Como iremos investir confiando numa resposta do país, se o Brasil nos últimos anos cresceu a uma taxa bem menor que a média do crescimento mundial?", questionou.
Além dessa falta de confiança, Utsch lista a necessidade de maior segurança jurídica (saber que as regras que motivam um investimento não vão mudar amanhã) e uma reforma tributária que desonere a produção e o próprio investimento. "Qualquer empresa tem que baixar custos para aumentar a receita e gerar dividendos. O governo, como não tem acionista cobrando, não baixa o custo da máquina. Aí não sobra dinheiro para investir. Se o governo diminuísse seus custos, poderia melhorar a infra-estrutura", defendeu outro executivo presente ao evento.
O presidente da Alpargatas também ressaltou que o governo precisa fazer sua parte, montando um grande planejamento de longo prazo para o país, que englobe todas as questões, como reformas da Previdência, tributária e política. "Não adianta pensar em reformas de uma maneira isolada, sem um planejamento que dê o norte para as decisões", completa Utsch.
Para o empresário Bernardo Biagi, presidente da Usina Batatais, as altas taxas de juros desestimulam os investimentos no país. "Embora estejam caindo, as taxas reais de juros ainda são altas", diz. Segundo ele, as empresas nacionais também estão em desvantagem em relação às companhias estrangeiras. "As multinacionais conseguem dinheiro mais barato de suas matrizes", afirma. O empresário anunciou recentemente investimentos de R$ 200 milhões em sua segunda usina de açúcar e álcool, sendo boa parte com recursos próprios. "Aqui temos o BNDES como alternativa de recursos baratos, mas é só isso."