Título: PV arquiva críticas e apoia Agnelo
Autor: Medeiros, Luísa
Fonte: Correio Braziliense, 08/10/2010, Cidades, p. 23
Eduardo Brandão alia-se ao petista no segundo turno da disputa ao Buriti. Ele nega ter negociado eventuais cargos Luísa Medeiros Quarto colocado nas urnas no primeiro turno, Eduardo Brandão (PV) anunciou ontem apoio à candidatura de Agnelo Queiroz (PT) ao Palácio do Buriti. Na segunda fase da corrida eleitoral, o petista concorre com a postulante Weslian Roriz (PSC), mulher do ex-governador Joaquim Roriz (PSC). Apesar de o Partido Verde ainda se manter neutro sobre sua preferência no segundo turno da disputa presidencial, a legenda preferiu marcar logo posição no Distrito Federal para dificultar o plano do clã Roriz de voltar ao poder. A expectativa é conseguir transferir para Agnelo parte dos votos recebidos por Brandão ¿ 78,8 mil ao todo, equivalente a 5,65% do total apurado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) no último domingo. Se o petista tivesse recebido um terço desse montante, poderia ter se saído vencedor ainda no último dia 3.
Convencer os eleitores do PV a optarem pelo petista para o GDF, no entanto, não é fácil. Cientistas políticos ouvidos pelo Correio apostam na autonomia do eleitorado. O professor aposentado da Universidade de Brasília Octaciano Nogueira acredita que o cidadão tem consciência de que o voto pertence a ele, não ao partido. ¿O político não é dono do voto do eleitor. Uma coisa é ele (Brandão) querer que os eleitores o sigam, outra coisa é isso acontecer. Agnelo pode fazer até discurso ambientalista, mas se o eleitor não quiser, não votará nele¿, argumentou Nogueira.
Professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), Emerson Masullo também pondera ao falar da eficácia da migração dos votos de Brandão para Agnelo. Ele chama atenção para a possibilidade de os eleitores terem votado, no primeiro turno, no PV ou no PSol como uma alternativa à polarização estabelecida entre os grupos vermelho e azul. ¿Quem votou em Toninho ou em Brandão pode não se identificar com o candidato do PT. Não há garantia da transferência de votos.¿ Mais do que uma força à candidatura de Agnelo, o cientista político analisa que a conduta tomada pelo PV local pode sinalizar uma tendência no cenário nacional. ¿É simbólico o apoio do PV na capital da República e seria paradoxal, apesar de a legislação eleitoral não proibir, que Brandão se alie a um partido contrário à vontade da executiva nacional da legenda¿, explicou Masullo. Aliás, o presidente nacional do PV, José Luiz Penna estava presente à cerimônia em que Brandão oficializou o apoio a Agnelo, no Hotel Lake Side. ¿Agimos de forma acertada¿, comentou Penna.
Sopa de letrinhas
A incerteza sobre a transfêrencia de votos levantada pelos especialistas não parece preocupar o novo apoiador de Agnelo. Com discurso em prol da extinção da ¿política do século 19 feita pela família Roriz¿, Eduardo Brandão deixou de lado as críticas às alianças do ex-adversário petista e defendeu a amplitude da união partidária no segundo turno. A ¿sopa de letrinhas¿, apelido dado pelo ex-candidato do PV à coligação Um novo caminho ¿ que inicialmente uniu 11 partidos a favor de Agnelo, e hoje, conta com 14 siglas ¿ é considerada agora por Brandão a melhor saída para os problemas do DF. ¿Não faço parte da sopa porque entendo que, no segundo turno, o político derrotado não pode virar as costas aos eleitores. Não estou nessa aliança desde o início, mas fizemos um apoiamento pragmático, pois queremos impedir que Brasília se torne uma fazenda. Essa coisa de a família Roriz se perpetuar no poder é muito ruim¿, contou.
Brandão esclareceu que as críticas feitas no passado poderão ser repetidas, caso o ¿amigo¿ Agnelo precise de conselhos. ¿As questões que acharmos erradas, vamos continuar criticando, o amigo tem esse direito e dever.¿ O ex-adversário do petista garantiu que a aliança não foi acertada mediante negociação de cargos no eventual governo do PT. Brandão, que foi subsecretário de Meio Ambiente na gestão do ex-governador cassado José Roberto Arruda, negou que tenha interesse em ocupar alguma secretaria, mas espera que Agnelo acople as propostas do PV para o meio ambiente ao plano de governo.
Brandão entregou ao petista uma carta contendo reivindicações verdes, como investir em coleta seletiva de lixo, acabar com o lixão da Estrutural e instalar os parques vivenciais do DF. Agnelo agradeceu a contribuição, negou uma possível divisão de cargos e aproveitou para fazer discurso com tom ambientalista. ¿O apoio de Brandão é um gesto de coragem e fortalece nossa unidade do ponto de vista eleitoral, mas não discutimos secretarias. Ele (Brandão) nos entregou um programa para o meio ambiente da capital. A situação hoje é preocupante devido à bagunça, à anarquia e à ilegalidade impostas há 14 anos. Vamos dar atenção à situação das nascentes, das bacias e dos parques¿, afirmou Agnelo. O petista concluiu o dia fazendo corpo a corpo na Rodoviária do Plano Piloto. Estava acompanhado de políticos eleitos, mas não do novo aliado.
Não faço parte da aliança desde o início, mas fizemos um apoiamento pragmático, pois queremos impedir que Brasília se torne uma fazenda¿
Eduardo Brandão (PV)
O apoio de Brandão é um gesto de coragem e fortalece nossa unidade do ponto de vista eleitoral, mas não discutimos secretarias¿ Agnelo Queiroz (PT)
O número
Faltam 23 dias para o 2º turno