Título: Para Gtech, o momento não é de despedida, mas de um "até breve"
Autor: Borges, André
Fonte: Valor Econômico, 21/08/2006, Empresas, p. B3

Pendências legais e fiscais. Essas são as únicas responsabilidades que a multinacional Gtech passa a ter no Brasil a partir de 10 de outubro, quando vence seu último contrato no país, este firmado com a Loteria do Estado de Minas Gerais.

A data também marca o fim de uma década de relacionamento conturbado com a Caixa Econômica Federal (CEF), cujo estopim se deu com os escândalos de corrupção envolvendo o ex-sub-chefe de assuntos parlamentares da Casa Civil, Waldomiro Diniz, e o empresário de jogos Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Os casos, que resultaram na criação da CPI dos Bingos, tiveram relatório final apresentado em junho. No documento é sugerido o indiciamento de ambos, tendo como base a renovação do contrato entre a Gtech e a CEF e o caso da Loteria do Rio de Janeiro (Loterj), que revelou um esquema de propinas envolvendo o mercado de jogos no Rio.

Com "pendências jurídicas", o executivo que controlou as operações da Gtech no Brasil, Fernando Cardoso, declara: "Contra nós nada foi provado. E fomos devassados. Ninguém foi mais auditado que nós, por tudo que se imagine, e de todas as formas."

Responsável pela gestão da Gtech em outros 32 países espalhados pela América Latina, Europa e Ásia, Cardoso não consegue disfarçar um clima de adeus, mas se nega a reconhecer que a operação no Brasil será desativada. "Primeiro porque uma multinacional não sai simplesmente do país, há responsabilidades que devem ser cumpridas", comenta. "Segundo porque estamos passando por um momento de reajustes. O clima não é de despedida, mas de até breve."

Na prática, a Gtech avalia o que fará com os seus quase 300 funcionários no país. Alguns deles, sinaliza Cardoso, serão mantidos para lidar com as "questões legais e fiscais" da subsidiária. Outros devem ser realocados em operações de outros países. Os demais, demitidos. "As reduções vão começar a partir de agora", diz.

Nos próximos dias, a Gtech também acerta o destino das 22 mil máquinas que mantinha em operação nas 9 mil casas lotéricas do país. Ao que tudo indica, cerca de 40% dos terminais lotéricos serão enviados para outras subsidiárias da companhia. Outra parcela será transformada em peças de reposição ou sucata.

Com o fim das operações com a CEF, a companhia deixa de administrar um contrato que já representou cerca de 10% de seu faturamento mundial, que foi de US$ 1,2 bilhão em 2005. No balanço do ano passado, as receitas da Gtech geradas fora dos Estados Unidos representam 52% dos negócios da empresa. Destes, 7,2% vieram apenas da Caixa, então segunda maior conta de toda a companhia.

Cardoso reconhece o peso do cliente perdido, mas minimiza seu impacto. "O que aconteceu não é o fim do mundo. O contrato acabou, mas as ações da Gtech seguem com o mesmo valor", afirma o executivo, ao alegar que ganhar e perder contratos faz parte do setor, uma vez que a maior parte das transações envolve licitações com órgãos públicos.

Hoje, ao fazer um balanço da companhia no país, o executivo se diz frustrado por não ver explorado o "real potencial" que o mercado lotérico nacional carrega. "O setor fatura aproximadamente US$ 2 bilhões por ano. Mas o seu potencial, se aplicarmos variáveis equivalentes a de outros países, é de pelo menos US$ 10 bilhões", diz.

Para o executivo da Gtech, pendências regulatórias em relação às loterias e ao jogos legais têm atrapalhado o desempenho do setor. Ainda assim, Cardoso, que hoje vive em Londres e só passa pelo Brasil a cada dois meses, deixa claro que a companhia continuará a olhar com atenção para possibilidades de negócios no país. "Vamos aguardar novas oportunidades de negócios. Se elas aparecerem, iremos qualifica-las", comenta. O recado vale, inclusive, para a própria Caixa. "Eu acredito que, no futuro, embora não possa precisar quando, surjam necessidades que possamos atender."

Dinheiro para investir não faltará. Na última semana, a Gtech, que já controla 70% do mercado mundial de loterias, teve sua compra aprovada pela italiana Lottomatica, numa transação avaliada em US$ 4,8 bilhões. A transação resulta em uma empresa presente em mais de cem países, com 6,3 mil funcionários. (AB)