Título: Poupança deve ficar em compasso de espera
Autor: Safatle ,Claudia ; Villaverde , João
Fonte: Valor Econômico, 26/04/2012, Finanças, p. C15

O princípio que rege a posição do governo em relação à caderneta de poupança, no momento, é o da ação e reação. Só quando se configurar a necessidade de mudança - a partir de uma migração das aplicações dos fundos de investimentos para a poupança - é que o Executivo enviará uma medida provisória ao Congresso alterando o rendimento das cadernetas.

Na previsão dos técnicos, isso começaria a ocorrer apenas se a taxa Selic cair para 8,5% ao ano. Desse patamar para baixo, é muito provável que comece uma saída de aplicações de fundos em direção à poupança, dificultando a colocação de títulos públicos pelo Tesouro Nacional.

Não se sabe se a taxa de juros cairá a tanto. A expectativa é de que a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), que será divulgada hoje, traga algum sinal sobre os rumos da Selic. Não é desprezível a possibilidade de o comitê entender que o juro de 9% ao ano está no piso. Se esse for o caso, não haveria qualquer iniciativa do governo em relação às cadernetas.

O assunto é complicado, um tabu político, e nenhum governo gostaria de ser o autor da proposta de alteração no rendimento da aplicação tida como segura e estável há mais de século.

O desfecho da conversa de pouco mais de uma hora entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e a presidente Dilma Rousseff ontem foi esse: só mexer na rentabilidade das cadernetas se isso for imperativo.

Dilma convocou Mantega ao Planalto na terça-feira à noite para tratar da aprovação, pelo Senado, da Resolução 72 (que unificou em 4% a alíquota do ICMS interestadual sobre importados) e ouvir o relato do ministro sobre a reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI), na semana passada.

O tema da poupança surgiu ao final da reunião e foi sugerido pela presidente, de acordo com o relato de uma fonte no Palácio do Planalto. "Tudo vai depender do Banco Central. Se o juro não cair abaixo de 8,5% não teria porque mexer na poupança este ano", resumiu a fonte.

Nem todos no governo, porém, estão confortáveis com a situação. Há quem aposte em novos cortes da Selic e considere urgente a necessidade da presidente Dilma Rousseff se adiantar à uma corrida dos fundos de investimentos para a poupança. "Não dá para aguentar até as eleições municipais de outubro para, só depois, mexer nas regras de remuneração da poupança. Os juros futuros já apontam para 8,5% em janeiro de 2013 e esse assunto está na mesa", advoga uma fonte da área econômica.

Outro argumento é que a redução dos juros para os tomadores de crédito e para os rentistas é parte de um mesmo pacote. "Precisamos desconstruir os juros altos nas duas pontas e isso também vale para a poupança", disse a fonte.

Com juros de 0,5% ao mês (6,17% ao ano) mais a Taxa Referencial (TR) e a isenção do Imposto de Renda (IR), a aplicação na poupança já é mais vantajosa que boa parte dos fundos de renda fixa (que aplicam os recursos em títulos públicos) cuja taxa de administração é superior a 1%. Essa taxa é uma gordura que pode ser queimada pelos fundos se eles quiserem permanecer competitivos.