Título: Ineficiência marca estatizações argentinas
Autor: Pisarenko , Natacha
Fonte: Valor Econômico, 23/04/2012, Internacional, p. A9

A YPF se somou a um conjunto de outras sete empresas reestatizadas desde a posse de Nestor Kirchner como presidente da Argentina, em 2003. Em relação às anteriores, de porte muito menor que a empresa petroleira, há um histórico de pouca transparência, processos internacionais e suspeitas de corrupção. O tema levanta poucas resistências no país porque todas as empresas que foram objeto da ação do governo estavam em estado falimentar ou com índices mínimos de operação, que melhoraram depois da retomada do controle estatal.

O caso mais recente antes da YPF era o da empresa aérea Aerolineas Argentinas, citada no Senado pelo vice-ministro da Economia, Axel Kicillof, como um modelo a ser seguido pela petroleira. A companhia de aviação foi expropriada em julho de 2008 da espanhola Marsans, em um momento em que a empresa estava afetada por greves, com salários e pagamentos a fornecedores em atraso. A expropriação ainda tramita na justiça e em fóruns internacionais como o Tribunal Arbitral do Banco Mundial, CIADI.

Uma avaliação apresentada pela Marsans e feita pelo banco Credit Suisse estimava em no mínimo US$ 350 milhões o total a ser pago pelo governo argentino. Mas o Tribunal de Taxações da Nação, o mesmo que irá arbitrar o valor a ser pago à espanhola Repsol pela YPF, decidiu que deveria ser pago apenas um peso, ao avaliar que a empresa tinha patrimônio negativo de quase US$ 1 bilhão, segundo o uruguaio Raul Vallarino, autor do livro "El caso Aerolineas Argentinas". O problema faz com que a titularidade da empresa, até hoje, seja formalmente da Marsans.

A empresa teve a gestão politizada e é conduzida por Mariano Recalde, filho de Hector Recalde, advogado da central sindical CGT. Mariano é um dos expoentes da agrupação peronista "La Campora", comandada pelo filho da presidente Cristina Kirchner, Máximo Kirchner. Desde que foi reestatizada, a Aerolineas não apresentou balanço. O último número público é de 2008. Autora do livro "La Campora" e setorista de aviação do jornal "La Nación", a jornalista Laura di Marco estima o déficit em US$ 2 milhões por dia. A se confirmar o número, seria a segunda empresa aérea com maior prejuízo no mundo, atrás apenas da Air India, de acordo com a revista especializada " Air Transport World".

Dois episódios constrangedores marcaram a gestão de Recalde. O menos grave foi um voo para aliados e amigos da casa para assistir a partida contra o Uruguai pelas eliminatórias da Copa da Africa, em 2010. O mais sério foi a operação de busca e apreensão de documentos realizadas na sede para investigar o suposto superfaturamento na compra de 20 aviões da Embraer, uma operação feita pelo seu antecessor, o atual ministro da Justiça, Julio Alak. A investigação, sob sigilo, está em curso na Justiça argentina. A Aerolineas e a Embraer negaram, à época, a existência de sobrepreço.

De acordo com um levantamento da ONG Associação Argentina de Orçamento e Administração Pública (Asap), no primeiro trimestre deste ano a Aerolineas representou uma despesa de 921,9 milhões de pesos argentinos, ou cerca de US$ 210 milhões, em subsídios do poder público, um aumento de 52% em relação ao mesmo período do ano passado. É uma variação que torna modesto o aumento de 4 % nos subsídios pagos à AYSA, a empresa de água e saneamento criada em 2006 para substituir a Aguas Argentinas. A AYSA teria recebido 869,6 milhões de pesos argentinos, de acordo com a ONG.

A Aguas Argentinas era controlada por um consórcio liderado pela francesa Suez, que teve a concessão cassada em março de 2006, seis meses depois de a empresa europeia avisar que não tinha mais interesse em prosseguir com a concessão e iniciar uma negociação para a rescisão. Não houve acordo e a francesa está demandando o governo argentino no CIADI em US$ 1,7 bilhão.

AYSA tem conseguido realizar obras de porte nos últimos anos. Já foi executado, por exemplo, 65% do contrato de US$ 700 milhões que a estatal tem com a brasileira Odebrecht para a construção da estação de tratamento de Tigre, no norte da região metropolitana da capital. Metade do dinheiro saiu de um financiamento do BNDES, em troca da importação de bens e serviços do Brasil.

Além da lista das reestatizadas, que ainda inclui a Correos Argentinos, que era controlada pela família do atual prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, ainda existem as estatais criadas pelas duas gestões. Uma delas, a Enarsa, surgiu em 2004 para atuar em todos os ramos da energia. Seu presidente, Exequiel Espinosa, foi nomeado diretor da YPF depois da expropriação. A principal atividade da Enarsa tem sido a compra e venda de gás natural do exterior, sobretudo da Bolívia e do Qatar.

A empresa recebeu 2 bilhões de pesos argentinos, ou US$ 458 milhões, apenas nos três primeiros meses do ano, segundo a ASAP. É uma soma 53% superior à paga no ano passado.