Título: Erenice Guerra depõe à PF
Autor: Edson Luiz
Fonte: Correio Braziliense, 26/10/2010, Política, p. 6

Ex-ministra diz que não conhecia as atividades do filho Israel, acusado de tráfico de influência, e deixa seus sigilos bancário e telefônico à disposição

A ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra confirmou ontem, em depoimento à Polícia Federal (PF), que recebeu o empresário Rubnei Quícoli quando ainda estava no cargo. Ela afirmou, porém, que não conhecia a atividade de Israel Guerra, um de seus filhos, que fazia negociações com a empresa Capital Consultoria, aberta em nome de Saulo Guerra, irmão de Israel. Erenice permaneceu por quatro horas na Superintendência da PF em Brasília, onde respondeu às mais de 100 perguntas formuladas pelo delegado Roberval Vicalvi, presidente do inquérito que investiga as suspeitas de existência de tráfico de influência e de advocacia administrativa na Casa Civil.

Erenice chegou de táxi, por volta das 9h20, sem ser vista pelos jornalistas que estavam na área externa do prédio da PF, e saiu às 13h35, mas não deu entrevistas. Segundo a Polícia Federal, as perguntas respondidas pela ex-ministra totalizaram nove laudas ¿ ao contrário de seus filhos, que decidiram pelo silêncio quando foram convocados a prestar depoimentos, há duas semanas. Conforme a PF, Erenice colocou seus sigilos bancário e telefônico à disposição dos investigadores.

Segundo os advogados da ex-ministra, ela confirmou no depoimento que teve um encontro com Quícoli quando ainda estava na Casa Civil, mas negou qualquer tráfico de influência. O empresário denunciou que Israel Guerra teria pedido dinheiro para intermediar financiamentos no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) por meio da Capital Consultoria. O empréstimo seria para a empresa de energia solar EDRB. Os recursos não foram liberados pelo banco estatal.

Contradição No depoimento de ontem, a ex-ministra contradiz declarações da Casa Civil, nas quais a pasta afirmara que Erenice não havia tido encontros com o empresário. Os advogados de defesa de Erenice, no entanto, sustentam que ocorreu um encontro, mas que sua cliente não tinha conhecimento das atividades de Israel. Segundo o advogado Mário Oliveira Filho, a ex-ministra jamais daria autorização para que houvesse contatos ou negócios envolvendo o nome dela. Ainda de acordo com o advogado, Erenice teria declarado à PF o mesmo em relação a Vinícus Castro, ex-assessor da Casa Civil, também foi acusado de ter participado do suposto esquema.

Erenice Guerra teria dito na Polícia Federal que também desconhecia negociações envolvendo a Master Top Linhas Aéreas (MTA). A empresa foi um dos pivôs da demissão da ex-ministra, que deixou o cargo em 10 de setembro. A PF apura se a companhia teria sido beneficiada pelo esquema na negociação da liberação de concessão de voo pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A MTA possui contratos com os Correios e o episódio também causou a queda do então diretor da estatal, Eduardo Artur Rodrigues.

À PF, a ex-ministra admitiu que se encontrou, durante num almoço, com o consultor Fábio Baracat, que trabalhava para a MTA. O encontro ocorreu em um restaurante de Brasília, onde ela estava com o marido. Baracat foi apresentado como amigo de Israel e a conversa, de acordo com o depoimento, teria sido apenas sobre questões sociais, sem envolvimento de negociações. O consultor foi um dos primeiros a confirmar o suposto esquema envolvendo, principalmente, o filho da ex-ministra.

O depoimento prestado ontem por Erenice foi na qualidade de testemunha ¿ um dos motivos que levou a ex-ministra a responder às mais de 100 perguntas formuladas pelo delegado que preside o inquérito. Segundo a defesa, não há motivo para que ela seja indiciada. Os advogados alegaram, ainda, que sua cliente não teve qualquer ingerência na nomeação de familiares para cargos públicos, e que a escolha foi por ¿questões técnicas¿.

Erenice Guerra era considerada uma espécie de braço direito da agora candidata à Presidência pelo PT, Dilma Rousseff, que deixou a Casa Civil nas mãos da antiga assessora. O escândalo envolvendo a ex-ministra não só causou sua demissão e gerou desconforto no governo, mas chegou a fazer estragos na campanha de Dilma, que, no primeiro turno, foi bastante cobrada sobre sua relação com Erenice.

Jornalista indiciado

O jornalista Amaury Ribeiro Júnior foi indiciado ontem pela Polícia Federal sob acusação de ter violado sigilos fiscais de Verônica Serra e de Alexandre Bourgeois, respectivamente filha e genro de José Serra, candidato do PSDB à Presidência da República. Segundo seu advogado, Adriano Bretas, a posição tomada pela PF vai permitir que seu cliente tenha acesso ao inquérito e possa apresentar seus argumentos, o que não havia ocorrido até ontem, quando o jornalista prestou novo depoimento. Ele ratificou as outras três declarações dadas anteriormente e negou envolvimento no caso.

Bretas afirmou que Amaury está servindo de ¿bode expiatório¿, que seu cliente não tem qualquer envolvimento com os fatos e negou que o jornalista tenha feito qualquer pagamento ao despachante Dirceu Rodrigues Garcia, que teria agenciado a quebra do sigilo dos parentes de Serra. ¿Ele nega ter pagado qualquer valor e qualquer vantagem indevida para quebrar sigilo ou para fazer o que fosse¿, alegou Bretas, completando que Amaury vai provar que não esteve envolvido nas ilegalidades.

Especulações ¿A defesa vê o indiciamento dele como uma coisa positiva, porque agora as especulações a respeito dos fatos vão cessar. Ele vai passar a ser investigado e será esclarecido que ele não cometeu crime algum¿, disse o advogado.

Amaury chegou pela manhã à Superintendência da Polícia Federal em Brasília, quase ao mesmo tempo que a ex-chefe da Casa Civil Erenice Guerra ¿ que prestou depoimento sobre outro caso ¿, e foi ouvido durante cinco horas. No fim, o jornalista foi indiciado por corrupção ativa, violação de informações sigilosas, uso de documento falso e crime contra a administração da Justiça. (EL)