Título: Crise do euro pulveriza o poder político na França
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 25/04/2012, Opinião, p. A14
Avanço forte da extrema-direita, progresso da esquerda não socialista e um quase empate no centro - a primeira fase das eleições francesas revela os efeitos dilaceradores da crise do euro sobre o eleitorado. O crescimento das franjas políticas à esquerda e à direita indica o mal-estar com a política de socialistas e gaulistas e com sua falta de respostas para os tempos sombrios em que o país vive. Enquanto os dois principais candidatos deixaram de lado a contundência sobre questões econômicas prementes, seus adversários esbanjaram demagogia. A diferença entre o socialista François Hollande e o presidente Nicolas Sarkozy foi pequena - 28,6% e 27,1%, respectivamente -, mas o suficiente para colocar Sarkozy na péssima situação de ser o único incumbente que não sai na dianteira em um primeiro turno.
Marine Le Pen, a expoente da Frente Nacional, de extrema-direita, arrebatou 17,9% dos votos, a maior porcentagem da história da legenda e o dobro do resultado de 2007. A esquerda fora do poder, representada por Jean-Luc Mélenchon, uma aliança de grupos da extrema-esquerda com comunistas, teve desempenho importante, de 11,1%, abaixo do que vinham apontando as pesquisas, embora acima da votação normal de partidos inexpressivos.
Sarkozy possivelmente será mais uma vítima da grave crise europeia que vem derrubando os partidos no poder - direita, centro ou esquerda. Sarkozy tem algumas chances de fugir dessa sina, ainda que pequenas. A combinação de desemprego elevado, austeridade e baixo crescimento ou recessão tem se revelado letal. A dívida francesa chegou a 90% do PIB, as receitas de Sarkozy não a reduziram e nem evitaram a recessão. A ausência de caminhos que apontem para a superação da crise levam analistas de mercado a predizer que as eleições francesas colocaram o país mais perto do centro da crise, especialmente se a vitória for de Hollande.
A ausência de respostas eficazes é um estímulo poderoso ao voto de protesto, que é eficiente em derrubar governos mas impotente para substituí-los por alternativas satisfatórias. Na prática, os que fizeram aperto fiscal, como José Zapatero na Espanha, pagaram o preço das medidas impopulares apenas para serem trocados por outros, como Mariano Rajoy, do direitista Partido Popular, cuja receita é a mesma, com mudanças na dosagem.
Algo parecido pode ocorrer na França, ressalvada as peculiaridades. Sarkozy amarrou parte de seu destino ao radicalismo fiscal alemão e a outra parte tenta fugir dessa herança maldita eleitoral. Com uma extrema-direita em seu encalço, defendeu o programa econômico que pratica, com mais impostos para empresas e corte de gastos modestos, acentuando os tons de xenofobia, que atribui parte das misérias atuais do país à imigração. François Hollande, o favorito, reconhece o óbvio, que é a necessidade de rumar para o crescimento, mas também sublinha o aumento dos tributos como ingrediente básico, ao propor mais impostos sobre mais ricos, sobre dividendos, nova taxa financeira etc. Isso rende votos, raramente soluções. Já Marine Le Pen reúne um conjunto de platitudes ao coro conhecido anti-imigração, Estado forte e ataques ao fracasso do euro, um dos responsáveis pela difícil situação francesa.
O segundo turno forçará uma reordenação das forças políticas, e as dificuldades maiores estão com Sarkozy, já que a esquerda migrará automaticamente para Hollande, mas os direitistas da Frente Nacional, não, enquanto o eleitorado centrista de François Bayrou, do Movimento Democrata (9,1% dos votos) tende a se dividir igualmente entre os dois candidatos.
As distinções partidárias não são tão nítidas porque na França, da direita à esquerda, passando pelo centro, todos os partidos são nacionalistas, descreem do livre mercado, são avessos à globalização e defendem a forte presença do Estado na economia - o gasto público francês é de 56% do Produto Interno Bruto, mais de dez pontos percentuais acima da média da OCDE, de 43,3%, e superior ao da Suécia. As diferenças entre Sarkozy e Hollande no campo da economia não são grandes, ambos falam pouco de austeridade e muito de impostos. Mas uma das divergências é relevante pelas consequências. Hollande prometeu rever o pacto de governança entre os países da zona do euro, feito sob os auspícios da Alemanha. Se cumprir a promessa, os mercados se agitarão. Uma improvável e apertada vitória de Sarkozy em um país dividido não teria um poder tranquilizador duradouro.