Título: Os cinco anos da mais longa guerra dos Estados Unidos
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Fonte: Valor Econômico, 11/09/2006, Especial, p. A14

Na manhã de 12 de setembro de 2001, os americanos despertaram num país mudado. Eles tinham visto as torres gêmeas do World Trade Center serem reduzidas a escombros, o Pentágono ardendo em chamas e um campo na Pensilvânia ser transformado em cemitério. Quase 3 mil pessoas foram mortas e o dobro ficou ferida no mais sangrento dia em solo americano desde a batalha de Antietam, em 1862. Eles tinham visto o seu presidente, o homem mais poderoso do mundo, meio perdido de um lado para outro. Além disso, tinham visto a face de um novo inimigo. Antes de 11 de setembro de 2001, poucas pessoas até mesmo no governo tinham ouvido falar da Al-Qaeda. Depois daquele dia, não havia como se livrar das imagens de Ossama bin Laden e de um dos seus agentes, Mohammed Ata.

Dificilmente se pode questionar que o 11 de setembro mudou os EUA de modo dramático: a Presidência de George Bush não tratou de muito mais desde então. Parte das mudanças, porém, foi inesperada. Quem teria imaginado, no momento em que um país chocado cerrava fileiras em torno da sua bandeira, que cinco anos depois as divisões partidárias seriam mais profundas do que nunca? Quem teria imaginado, quando o presidente prometeu que "as pessoas que derrubaram esses edifícios ouvirão falar de nós em breve", que cinco anos depois Bin Laden ainda estaria em liberdade e os EUA estariam atolados no Iraque?

O resultado imediato do 11 de setembro foi uma explosão repentina de união nacional. O país estava envolto em bandeiras. A Wal-Mart vendeu 116 mil delas em 11 de setembro e 250 mil no dia seguinte. O estado de ânimo liquidou a política partidária. O deputado Dick Armey, um conservador incendiário, abraçou Maxine Waters, deputada incendiária da esquerda. Bush abraçou Tom Daschle, o líder democrata, no plenário do Senado. Conservadores atacaram Jerry Falwell e Pat Robertson, dois radialistas evangélicos, por nutrirem a idéia de que o 11 de setembro foi uma punição de Deus aos "pagãos, defensores do aborto, feministas, gays e lésbicas". Esquerdistas denunciaram asperamente Susan Sontag por esta sugerir que o atentado teria sido um revide pelos crimes dos EUA.

Os atentados trouxeram um fim abrupto às "férias da história" que se seguiram à derrocada da União Soviética. Eles também trouxeram um desfecho abrupto à sensação de invulnerabilidade dos EUA: com todo o seu poderio militar e sua barreira oceânica, o país estava escancaradamente aberto a atentados de fanáticos que viviam em cavernas no Afeganistão.

Isso tudo produziu um estado de espírito de introspecção. Um artigo de capa da revista "Newsweek" perguntava: "Por que eles nos odeiam?"; livros sobre o Islã encabeçavam as listas dos mais vendidos. Também produziu algo mais entranho: um desejo de vingança. Três dias após os atentados, a Catedral Nacional, em Washington, concluiu uma missa em memória das vítimas com o "Battle Hymn of the Republic" (hino patriótico da Guerra Civil dos EUA).

O governo tirou proveito do ambiente mais vingativo para produzir uma reação de grande alcance. Em 11 de setembro, Bush concluiu que os EUA estavam em guerra. E declarou que não faria nenhuma distinção entre terroristas e os que os abrigavam. Isso imediatamente se tornou a "doutrina Bush".

Os EUA não esperariam pelo próximo atentado: o país levaria a guerra ao inimigo. Isso não significava só a Al-Qaeda. Qualquer país que patrocinasse terroristas ou que lhes dessem armas de destruição em massa (ADM) receberia o tratamento apropriado, mesmo antes de a ameaça estar amadurecida. E os EUA não tratariam simplesmente os sintomas. Lidariam com as causas do terrorismo islâmico.

A doutrina recorria a duas crenças contraditórias: a de que os EUA eram poderosos o bastante para reordenar o mundo e a de que estavam vulneráveis a ataques ainda piores. O vice-presidente Dick Cheney passou a enunciar sua própria política, conhecida como "doutrina 1%": mesmo que haja só 1% de probabilidade de que terroristas se apoderem de ADM, os EUA agirão como se isso fosse uma certeza.

O 11 de setembro conferiu um enorme empurrão a Bush. Após os atentados, o percentual de americanos que diziam que o aprovavam disparou, passando da casa dos 50% para 90%, os mais altos níveis já registrados por um presidente. Sua avaliação ficou acima de 60% por 16 meses, na mais prolongada alta da popularidade presidencial desde a Segunda Guerra Mundial. E o 11 de setembro fortaleceu Bush de uma forma mais pessoal: o arrogante garotão que cresceu à sombra de um pai extremamente bem-sucedido adquiriu nova coragem e determinação.

O governo usou a popularidade do presidente de forma implacável para fortalecer o poder do Executivo. Na esteira do 11 de setembro, arquitetou a maior expansão do poder presidencial desde os dias de Franklin Roosevelt. Bush se declarou um "presidente da guerra". Além disso, tomou uma série de decisões que voltariam para assombrá-lo, do monitoramento de chamadas telefônicas sem a aprovação explícita da Justiça até o estabelecimento de tribunais militares. Mesmo quando teve a garantia de uma aprovação automática por parte de um Congresso submisso, ele preferiu seguir sozinho. Chuck Hagel, um senador republicano, queixou-se de que o governo tratava o Congresso como uma "inconveniência constitucional".

Ao mesmo tempo, o 11 de setembro fortaleceu os republicanos e enfraqueceu os democratas. Na segunda metade do século XX, os republicanos passaram a ser vistos como o partido mais confiável em questões de segurança nacional. Em 2001, os democratas sabiam disso, porém não conseguiam decidir o que fazer a respeito. Primeiro, tentaram desviar o assunto para os seus trunfos, saúde e educação. Depois, quando escolheram John Kerry como candidato à Presidência, compensaram a dose em demasia, ao transformarem sua convenção de 2004 em Boston numa assembléia de veteranos do Vietnã. Lá, Kerry, ao saudar a platéia, usou as palavras: "Apresentando-se para o serviço [militar]".

Os republicanos fizeram sólido progresso nas eleições legislativas de 2002, consolidando seu controle sobre a Câmara dos Deputados e apoderando-se do Senado. Esta foi apenas a terceira vez desde a guerra civil que o partido do presidente conquistou cadeiras nas eleições de metade de mandato presidencial. Além disso, Bush venceu as eleições presidenciais de 2004 com mais votos do que qualquer presidente na história. O 11 de setembro impeliu as duas vitórias.

Os sentimentos suprapartidários que se seguiram ao 11 de setembro dificilmente teriam durado para sempre. Mas surpreende como a generosa coragem da união nacional se transformou num partidarismo belicoso.

A mudança foi primeiramente vista na revolta de Howard Dean contra o establishment democrata, quando ele tentou obter a candidatura presidencial do partido. Instituições que, na sua opinião, haviam permitido a Bush transformar os atentados terroristas numa carta branca para o seu Partido Republicano. E essa divisão continua compelindo não só a política, mas também a cultura popular. Neil Young, cuja canção de 2001 "Let´s Roll" homenageia a bravura dos passageiros que se lançaram sobre os seqüestradores no vôo que caiu na Pensilvânia, agora canta sobre o impeachment do presidente.

A principal causa deste partidarismo é a guerra do Iraque, que está se revelando ainda mais divisora que a do Vietnã. Logo após o 11 de setembro, os americanos estavam dispostos a culpar Saddam Hussein: em pesquisa dois dias depois, 34% consideraram ser "muito provável" que Saddam estivesse envolvido pessoalmente, e 44% acreditavam ser "provável de certa forma". Amplas maiorias dos dois partidos políticos - 80% dos republicanos e 69% dos democratas - apoiaram a guerra com o Iraque.

Os falcões conservadores, porém, sempre foram os maiores entusiastas dessa conexão. Num encontro em Camp David, logo depois de 11 de setembro, Paul Wolfowitz, o subsecretário de Defesa, disse três vezes que os EUA deveriam atacar o Iraque, não o Afeganistão. Além disso, muitos democratas sempre foram céticos: 126 democratas da Câmara e 21 no Senado votaram contra a resolução de guerra contra o Iraque, em outubro de 2002. A oposição dos democratas à guerra cresceu à medida que o país fracassava em obter a aprovação da ONU para depor Saddam. E se transformou em furor quando os EUA fracassaram na busca por ADM ou na tentativa de subjugar a resistência. Nada inspira mais raiva na esquerda que a crença de que Bush explorou o 11 de novembro para justificar planos antigos de remover o presidente iraquiano.

Mesmo assim, há muito mais polarização nos EUA do que a produzida só pelo Iraque. O partidarismo tem sido em parte impulsionado pelo oportunismo político, pois os republicanos tentaram transformar o 11 de setembro em conquista de votos. Como poderiam os democratas perdoar os republicanos por estigmatizar Max Cleland, um homem que perdeu três membros do corpo no Vietnã, considerando-o brando demais na questão do terrorismo para ser digno de reeleição à sua vaga no senado pela Geórgia, em 2002? Mas a ruptura foi ainda fortalecida por profundas diferenças filosóficas, sumariamente reprimidas, sobre o papel dos EUA no mundo.

A esquerda dos EUA, em particular, voltou à sua suspeita, anterior ao 11 de setembro e possivelmente anterior até a Clinton, sobre o poderio do país. Uma pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts em novembro de 2005 apurou que apenas 59% dos democratas ainda apoiavam a decisão de invadir o Afeganistão, contra 94% dos republicanos. Um levantamento da Century Foundation pediu a esquerdistas e conservadores que atribuíssem uma nota aos seus dois principais objetivos em política externa. Os conservadores colocaram a destruição da Al-Qaeda no topo da lista; os esquerdistas a situaram na décima posição.

É tentador afirmar que a coisa mais impressionante a respeito do 11 de setembro, cinco anos depois, é quão pouco ele mudou os EUA. Muitas características do panorama político são exatamente as mesmas existentes de 10 de setembro: um presidente polarizador, um eleitorado dividido quase ao meio, um Partido Republicano que adora se enrolar na bandeira e um Partido Democrata mais preocupado com terceirização de empregos que com terrorismo. Se olharmos mais a fundo, porém, descobriremos mudanças dramáticas.

A principal é uma nova ênfase na segurança nacional. Em 2000, apesar de uma série de atentados terroristas devastadores, incluindo o primeiro atentado ao World Trade Center, só 12% dos americanos citou "assuntos mundiais" como um "tema de suprema importância". Hoje eles são centrais.

A sombra do 11 de setembro deverá pairar sobre as eleições legislativas deste ano. Ken Mehlman, o presidente do Comitê Nacional Republicano, argumenta que a questão de maior peso em novembro será: "Você acredita que estamos em guerra?". Os democratas revidam, argumentando que, graças à guerra no Iraque e ao desleixo com a segurança interna, Bush está tornando o país menos seguro.

O 11 de setembro também deverá pairar sobre a eleição presidencial de 2008. John McCain (torturado pelos vietnamitas) e Rudy Giuliani (que teve uma comovente atuação em 11 de setembro como prefeito de Nova York), dois dos principais candidatos republicanos, ostentam credenciais perfeitas para o novo mundo atormentado pelo terrorismo. Hillary Clinton, que lidera a disputa democrata, tem polido as suas próprias credenciais de dama de ferro na Comissão das Forças Armadas do Senado.

O foco na segurança nacional reflete uma segunda mudança importante: a nova, mas continuada sensação de vulnerabilidade dos EUA. Esta sensação se aprofundou ao longo dos anos. O Iraque provou como é difícil para os EUA usar o seu poderio militar para mudar o mundo. O fiasco de não conseguir encontrar ADM sublinhou a debilidade dos serviços de inteligência. A resposta ao furacão Katrina mostrou dramaticamente o que vários relatórios do Congresso já haviam assinalado: que o governo se empenhou pouco em se preparar para um novo ataque catastrófico.

Por último, o 11 de setembro transformou a Presidência de Bush num grande negócio. Antes do ataque, Bush parecia ser um presidente de pequeno calibre: divisor, sem dúvida, mas divisor sobre pequenas coisas. Na manhã de 11 de setembro, Bush estava lendo "My Pet Goat" (Minha Cabra de Estimação) para uma classe da segunda série. Seu redator de discursos, Michael Gerson, preparava uma fala sobre comunidades de caráter. Os EUA agora estão divididos como nunca quanto a Bush. Seus apoiadores o consideram uma figura "transformadora", como Ronald Reagan. Seus críticos o consideram uma catástrofe, possivelmente o pior presidente da história americana, segundo Sean Wilentz, historiador da Universidade Princeton. Graças ao 11 de setembro, porém, ninguém pode relegá-lo à mera condição de nota de rodapé.