Título: 'Bancada da bala' em SP perde seu principal deputado estadual
Autor: Agostine, Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 12/09/2006, Política, p. A10
Um dos principais deputados da bancada da Segurança da Assembléia Legislativa de São Paulo, coronel Ubiratan Guimarães (PTB), foi assassinado na madrugada de sábado para domingo. Conhecido por comandar o massacre da antiga Casa de Detenção Provisória Carandiru há treze anos, o parlamentar concorria à reeleição e sua vitória era tida como certa depois da absolvição pelos desembargadores do Órgão Especial do TJ, em fevereiro, da pena de 632 anos a que foi condenado pela morte de 111 pessoas.
Considerado como um "baluarte" na defesa da venda de armas aos cidadãos, no referendo sobre o desarmamento do ano passado, Ubiratan também era visto por dirigentes de seu partido como grande "puxador" de votos.
Na Assembléia, o coronel atuou em defesa da valorização do policial e seu discurso ganhou ainda mais força depois das ondas de ataques do crime organizado em São Paulo, orquestrados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele seria um dos grandes eleitores para a "bancada da bala" na Assembléia paulista. Os deputados que empunham a bandeira da segurança dizem que sem o coronel Ubiratan, a disputa pelos votos se tornará mais acirrada, mas descartam que a bancada diminua.
"Evidente que a morte de Ubiratan prejudica a campanha do partido. Ele estava praticamente eleito. Vamos perder sem ele", analisou o ex-presidente do PTB, deputado Campos Machado. Colega de partido na Comissão de Segurança da Assembléia, Conte Lopes reconheceu a perda para o partido com a morte de Ubiratan. "Foi uma perda muito grande. Espero que ninguém queria aproveitar, de forma demagógica e barata os preceitos que ele defendia", comentou Machado.
No lugar do coronel, deve assumir a suplente na chapa, Edir Sale, do PL, partido coligado ao PTB em São Paulo. Mas o partido pretende "conservar" o número 111 -alusivo às mortes no Carandiru- que Ubiratan usava em sua chapa (14.111), como homenagem ao coronel. "Ninguém mais usará esse número. Ele será sempre do Ubiratan", disse Machado.
O coronel foi encontrado morto em seu apartamento na noite do domingo. De acordo com a polícia, ele foi atingido por um tiro, na altura do abdômen. Não havia sinais de luta no apartamento e a porta dos fundos estava apenas encostada. As duas hipóteses mais cogitadas são crime passional e vingança do crime organizado, ligada ao assassinato do diretor do Carandiru na época do massacre, José Ismael Pedrosa, morto no ano passado.
Mesmo ainda sem confirmação do motivo do assassinato, o deputados da oposição na Assembléia assumiram um discurso crítico à política de segurança do Estado para comentar o caso. Com o pretexto de defender a elucidação do assassinato, o deputado Vanderlei Siraque (PT), da Comissão de Segurança da Assembléia, atacou as ações do governo estadual. "Esse crime tem de ser esclarecido. Não pode cair no esquecimento como a grande maioria dos homicídios, nos últimos doze anos", disse. "Ninguém mais tem segurança em São Paulo".
Na mesma linha, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia, deputado Ítalo Cardoso (PT), divulgou nota onde defendeu que o crime "não seja mais um a entrar na lista dos crimes impunes em nosso país" . "O assassinato do coronel Ubiratan Guimarães é, infelizmente, mais um ato cruel da situação de violência extremada que vivemos hoje no Estado de São Paulo", afirmou.
Coronel Ubiratan tinha 63 anos, era viúvo e deixa filhos. Tinha uma namorada, a advogada Carla Cepollina, 42 anos, tida pela polícia como última pessoa com quem esteve.