Título: Mercado avalia risco do novo governo Lula
Autor: Lucchesi, Cristiane Perini
Fonte: Valor Econômico, 14/09/2006, Finanças, p. C3

Apesar de preferirem Geraldo Alckmin, os participantes do mercado financeiro já dão como certa a vitória de Lula nas eleições presidenciais brasileiras, possivelmente no primeiro turno. Essa perspectiva, diferentemente do que aconteceu em 2002, não trouxe mais volatilidade aos mercados de câmbio ou títulos da dívida externa, que têm tratado as eleições como um "não-evento". Mas, para diretores e analistas de bancos estrangeiros, os mercados podem estar subestimando os riscos do segundo mandato do governo Lula no médio e longo prazo.

Um dos riscos principais seria a falta de apoio legislativo para a aprovação de medidas defendidas pelos bancos e analistas do mercado, muitas delas impopulares, como novas reformas na Previdência Social, por exemplo. "Os vários escândalos que vieram a público desde 2005 aparentemente prejudicaram mais a imagem do Legislativo do que do Executivo, e por isso mudanças mais profundas parecem mais prováveis no Legislativo, principalmente na Câmara, que vai eleger todos os seus membros em outubro", diz Michael Hood, analista do Barclays Capital, em detalhado relatório de oito páginas intitulado "Eleições no Brasil: o que está em jogo?"

Segundo ele, o PT e os partidos aliados devem perder cadeiras na Câmara e a dificuldade do governo para obter maioria, que já existiu no primeiro mandato, deverá ser ainda maior no segundo. Diretores de banco estrangeiro que preferiram não se identificar chegaram a afirmar que, embora prefiram Alckmin, já estão torcendo pela vitória de Lula no primeiro turno, de forma que sua força política seja maior para aprovar reformas no Congresso.

Hood lembra do que chamou de "fadiga do segundo turno", que tomou conta do governo Menem, na Argentina, e do governo de Fernando Henrique Cardoso no Brasil. Segundo ele, o ritmo de aprovação de reformas no legislativo foi reduzido drasticamente nesses dois casos em relação ao primeiro mandato. Hood vê ainda o risco de uma maior influência da "base petista" no segundo mandato. "Muitos dos que permaneceram no partido e estão servindo no governo ou no Legislativo esperam usar um segundo mandato do Lula para puxar o partido mais para perto de sua agenda original", diz Hood.

Afinal, segundo ele, o governo Lula trouxe aos mercados a mais surpreendente surpresa em termos de macroeconomia na história recente da América Latina, visto que um partido com "uma história de ideologia socialista" acabou mantendo a mesma orientação do governo FHC, que foi vista por "amigos de longa-data de Lula" como "excessivamente pró-mercado". Esses críticos poderiam agora exigir mais, avalia ele.

"Muitos estão preocupados que o verdadeiro Lula iria aparecer no segundo mandato, refletindo o velho PT ou o presidente da Venezuela, Hugo Chavez", conta o estrategista da Lehman Brothers, John Welch. Segundo ele, empresários até chegaram a questionar Lula neste sentido. "A resposta foi que o PT teria um papel muito menor em sua próxima administração e que Lula iria criar um verdadeiro governo de coalizão", diz.

Para ele, mais importante do que a pressão do "antigo PT" no segundo mandato será a aproximação maior com o governo Lula do PMDB e também de Aécio Neves, do PSDB. O analista acredita que mais representantes de outros partidos que não o PT estarão representados em cargos-chave do Executivo. "O Lula tem boa intuição política e vai buscar entendimentos com a oposição para poder avançar com seus projetos de governo", acredita Welch.

Para os analistas, o maior desafio do governo será conter os gastos primários e manter a performance fiscal do primeiro mandato, dada a impossibilidade de maior aumento dos impostos, as limitações do orçamento, o crescimento econômico fraco e as pressões políticas.