Título: Governador investe no discurso da conciliação
Autor: Costa, Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 13/09/2006, Política, p. A8
Inspirado no exemplo de Juscelino Kubitschek, o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), pregou ontem o exercício da política com arte e bom humor. "Você não precisa ofender, não precisa tratar os adversários como inimigos irreconciliáveis, não pode fazer política achando que alguém por estar do outro campo ou num outro partido só tenha defeitos", afirmou o governador em Diamantina, onde esteve para a entrega da medalha JK, uma cerimônia que marca a celebração do aniversário do ex-presidente da República na sua cidade natal.
Aécio Neves evitou críticas diretas ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em diferentes momentos, porém, fez declarações que mais pareciam respostas às declarações de FHC em sua carta aberta, divulgada na semana passada. Na interpretação de alguns políticos, a carta de FHC foi também um recado ao próprio Aécio, condenando sua aproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em Diamantina, o governador mineiro negou que tenha planos de deixar o PSDB para ser o candidato do PMDB à Presidência em 2010, com o apoio de Lula, como comenta-se nos bastidores da política. "Estou muito bem, feliz no PSDB, onde eu só fiz amigos", afirmou. Mas não conseguiu evitar uma risada irônica ao falar dos amigos que tem no ninho tucano: "Não estou tratando de outra coisa hoje senão das eleições que ocorrerão no dia 1º de outubro".
Mais uma vez, Aécio Neves condenou o debate interno sobre as falhas do PSDB na campanha a três semanas da eleição. "Nessa hora nós temos que ter firmeza, falarmos na mesma direção e evitarmos criar marolas desnecessárias." Ele destacou o aquecimento da campanha de Geraldo Alckmin na reta final da campanha e cobrou concentração dos esforços no sentido de garantir o segundo turno.
Para o governador mineiro, algumas reflexões propostas pelo ex-presidente Fernando Henrique podem ser necessárias, mas só poderão ser úteis após as eleições. Não faz sentido, avaliou o governador, discutir às vésperas da eleição se o PSDB deveria ter assumido uma postura diferente na época das denúncias sobre o mensalão e caixa 2. Naquele momento, observou ele, o PSDB agiu como achou que deveria.
Diferentemente de outros anos, desta vez Aécio Neves não utilizou a festa em Diamantina para reforçar as pontes que tenta construir com lideranças de outros partidos. Faltaram ontem grandes estrelas do cenário político nacional no palanque da entrega da medalha de JK. Entre os principais homenageados estavam ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PFL). A maior parte dos agraciados, no entanto, foram empresários e intelectuais.
No ano passado, parlamentares da CPMI dos Correios marcaram presença na solenidade. Em 2002, quando disputava o governo do Estado, o próprio Aécio foi condecorado pelo então governador Itamar Franco. Ao seu lado no palanque, condecorado com a mesma honraria, estava Lula, então candidato à Presidência da República.