Título: Bancos médios viabilizaram salto do crédito
Autor: Carvalho, Maria Christina
Fonte: Valor Econômico, 15/09/2006, Finanças, p. C3

Foi eleito, terça-feira, o novo presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Milto Bardini. A ABBC é identificada como a entidade dos bancos pequenos e médios em contraposição à Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Mas, a ABBC tem, entre seus 78 associados, grandes bancos também. Vice-presidente do BicBanco desde janeiro de 2002, Bardini, 60 anos, afirmou que está assumindo o posto em um momento bem mais favorável do que seu antecessor, João Rabêllo, que enfrentou, dois meses depois da posse, as turbulências causadas pela quebra do Banco Santos, em novembro de 2004, que reverberaram por toda a cadeia de bancos de menor porte.

Para Bardini, os bancos pequenos e médios se saíram bem do teste que pôs á prova suas qualidades gerenciais. "O Banco Santos acabou propiciando um salto maior do que a caminhada normal permitiria", disse.

Com o horizonte mais desanuviado, Bardini, formado em Ciências Políticas e Sociais pela Universidade de Louvain, Bélgica, em 1971, quer enfatizar, em sua gestão de dois anos à frente da ABBC, questões práticas além da promoção dos dois principais pólos de negócios do setor, o crédito consignado e o financiamento de empresas médias. A ABBC já gerencia um sistema compartilhado de compensação e Bardini quer ampliar a experiência para reduzir os custos operacionais dos bancos desse segmento.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: Os bancos menores já superaram a crise do Banco Santos?

Milto Bardini Visto dois anos depois, o evento é semelhantes aos fenômenos climáticos freqüentes no Hemisfério Norte em que um furacão aparece e depois é rebaixado para tempestade. Forçou os bancos a gastarem em prevenção e aumentou a adrenalina. Foi um excelente teste das qualidades gerenciais dos bancos brasileiros.

Valor: Como os bancos superaram a turbulência?

Bardini Uma das saídas foi aproveitar a liquidez internacional e captar recursos no exterior. Só neste mês, seis bancos médios fecharam captações externas aproveitando o fim das férias no Hemisfério Norte. O mercado externo propicia captações a prazos mais longos, que casam com as operações de crédito consignado e com a crescente demanda de crédito corporativo com maior prazo. Enquanto perdurarem as condições internacionais favoráveis e a liquidez abundante, os bancos médios vão tirar proveito.

Valor: Como vai a relação com os grandes bancos?

Bardini Há mais complementaridade do que concorrência. Os grandes bancos têm como trunfo a capilaridade e a capacidade de reunir grandes volumes de recursos para as grandes empresas.

Valor: E qual é o trunfo dos pequenos?

Bardini Já os bancos pequenos e médios ganham em agilidade e rapidez para encontrar soluções para os clientes. Mas há espaço para todos os segmentos.

Valor: Mas os grandes bancos estão cada vez mais entrando nos nichos dos pequenos como o consignado e o middle market.

Bardini Isso é reflexo da redução da taxa básica de juros. A Selic caiu cerca de 10 pontos em um ano e meio e isso força os bancos a procurarem os negócios mais rentáveis. Os bancos menores, porém, têm a agilidade como grande vantagem competitiva. O desafio dos grandes bancos é ter essa mesma agilidade.

Valor: Por que o consignado não atraiu de imediato os grandes?

Bardini A maior dificuldade dos grandes bancos foi com a terceirização do processo de originação desse tipo de crédito, por meio dos agentes e correspondentes bancários. Isso não entra no paradigma dos grandes bancos. Foram os pequenos que tiveram o mérito de viabilizar a camadas extensas da população o acesso ao crédito em escala nunca antes vista. Os bancos grandes só começaram a entrar na área depois das cessões de carteira.

Valor: A concentração do sistema financeiro vai continuar?

Bardini A consolidação vai continuar sim. Mas, não temos a síndrome do girassol, que só olha para o sol. Estamos olhando para os lados também. Os grandes bancos que estão aí já foram menores.

Valor: Quais são seus principais projetos à frente da ABBC?

Bardini Um deles é reduzir os custos operacionais, uma questão bastante sensível para os bancos. Um caminho é o compartilhamento de certas operações como as de retaguarda e a tecnologia da informação. A ABBC já viabiliza o compartilhamento de operações de compensação para os bancos associados. A intenção é aplicar a mesma idéia em outras áreas.

Valor: Por que isso é um tema sensível para os bancos?

Bardini Com a queda das taxas de juros será necessário trabalhar forte no lado das despesas.

Valor: Quais outras questões são importantes?

Bardini O projeto mais ambicioso é preparar os bancos médios para a adoção de medidas de governança corporativa. Essa é uma exigência crescente, especialmente dos bancos que estão indo captar no mercado internacional. Entre os pontos que o projeto envolve incluem-se aumentar a transparência; preparar os bancos para a constituição de holdings financeiras, uma tendência dos reguladores do mundo todo; desenvolver os controles internos; padronizar os conceitos de responsabilidade socioambiental; e preparar as instituições para a avaliação pelo sistema de ratings do Banco Central, previsto para os próximos semestres.