Título: Tricotagem para amansar o PMDB
Autor: Pariz, Tiago
Fonte: Correio Braziliense, 03/11/2010, Política, p. 2
Ao incluir o vice de Dilma, Michel Temer, no comando da mudança de governo, integrantes do núcleo ligado à nova presidente pretendem frear o mal-estar entre os partidos
Vice-presidente eleito, Michel Temer (PMDB) ainda não recebeu da futura presidente Dilma Rousseff um tratamento institucional próprio do cargo que ele ocupará. O deputado ficou de fora das primeiras decisões que afetam a transição e participou de uma conversa sobre o governo que toma posse em 1º de janeiro apenas com o presidente do PT, José Eduardo Dutra. Tudo isso depois de dois dias e muitas horas de reuniões reservadas a Dilma e ao trio de petistas que comandaram a campanha eleitoral.
Temer sequer participou da decisão tomada na segunda-feira sobre o governo de transição. Ele ficou de fora da primeira lista que circulou dos nomes que comandariam a mudança de governo. Só foi incorporado ontem. Passará a chefiar as negociações políticas ao lado de Dutra e do secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo. O deputado Antônio Palocci será o chefe da equipe técnica de transição. Para não deixar dúvidas, a indicação de Temer ocorreu por meio de nota oficial, a primeira divulgada pela presidente eleita. Para tentar amenizar o mal-estar político, Dutra e Cardozo disseram que as reuniões dos últimos dois dias foram bastante informais, para discutir questões de agenda.
Nós estamos apenas formalizando os atos todos que precisavam ser feitos. O PMDB é um partido parceiro e o vice estará conosco permanentemente, disse o secretário-geral do PT. O clima é de harmonia, emendou Cardozo. Ontem, para fazer um afago no PMDB, o presidente do PT chegou a dizer que quem ditará o ritmo das negociações será Temer. Se tem algum subordinado aqui sou eu, afirmou Dutra. A relação melindrada com os peemedebistas se arrasta desde a campanha. Dilma não defendeu o partido em entrevista ao Jornal Nacional e demorou para usar a mensagem do vice no programa de televisão. Resumo: não teve uma relação próxima com seu companheiro de chapa. E, agora, os assessores da presidente o tratam como um dirigente partidário.
A primeira conversa entre Temer e os assessores de Dilma ocorreu na noite de segunda-feira. Ao receber a tarefa de fazer a negociação com os 10 partidos que fazem parte da coligação, Dutra telefonou para o vice para marcar um jantar, que ocorreu ontem à noite (veja abaixo). O convescote, no entanto, foi marcado de última hora. Até ontem à noite, a primeira reunião com o PT estava marcada para a próxima semana. Segundo o petista, não há rusgas com os peemedebistas, mas ainda não há, também, uma tarefa específica para o futuro vice.
Apesar de dizer que o momento da transição é para discutir metas de governo e não a partilha do bolo da Esplanada, Dutra afirmou que coletará recomendações sobre possíveis nomes da próxima administração nas conversas com os partidos. Vamos ver se tem sugestão de nomes, disse.
Atento aos sinais dentro da base aliada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva antecipou da semana que vem para hoje uma reunião com os integrantes de sua coordenação política. A ideia é discutir, desde já, o trabalho que terá de ser feito nesses dois meses de transição de governos.
Voracidade
Há um consenso entre os petistas: o PMDB será voraz por cargos de destaque no governo Dilma. Por isso, a meta é tentar dissociar a divisão dos ministérios com a briga pela Presidência da Câmara e do Senado. Dutra foi para o jantar com Temer ontem certo de que haveria discussão sobre os postos-chaves também do Congresso.
O PMDB se prepara para comandar a Câmara e o Senado a partir de 2011. O líder do partido, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), tem dito que vai buscar apoio da oposição para alcançar a meta. Enquanto isso, o PT tenta formar um bloco com os partidos de esquerda para poder eleger o terceiro na linha sucessória do Palácio do Planalto.
O ideal é não ter disputa entre os dois maiores partidos, afirmou Dutra. O clima de desconfiança, no entanto, não parte apenas do PMDB. Outros aliados, como o PSB, o PDT e o PP também se juntam ao grupo de incrédulos. Esses partidos esperam ser agraciados com cargos na futura administração, mas já apostam que o PT colocará barreira em todas as discussões.
Costura complexa
A formação do futuro governo passa por uma matemática complexa de atender todos os anseios dos partidos aliados. Além dos 10 partidos que apoiaram Dilma na corrida eleitoral, o vice-presidente Michel Temer e o presidente do PT, José Eduardo Dutra, pretendem conversar também com a bancada do PTB, apesar de o partido ter preferido trabalhar oficialmente pela candidatura de José Serra (PSDB).
SEM SACO DE MALDADES
Edson Luiz
A presidente eleita, Dilma Rousseff, concedeu novas entrevistas a emissoras de televisão ontem. Aos jornalistas, afirmou que o presidente Lula não deve tomar medidas duras antes de deixar o mandato, comprometeu-se a conversar com centrais sindicais para chegar ao melhor valor para o salário mínimo e descartou criar um imposto semelhante à Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, a CPMF. Dilma garantiu que pretende realizar uma redução tributária e descartou problemas com o PMDB.
Para Dilma, as medidas que Lula poderá adotar serão necessárias para a votação do Orçamento do próximo ano. Ele vai fazer o que tem de ser feito, afirmou. Não acredito que o presidente tomará medidas duras, acrescentou Dilma, ressaltando não haver um pacote de maldades no fim do governo para preservá-la de medidas impopulares no início da gestão. Sobre o financiamento da saúde, ela descartou ressuscitar a CPMF. Vou fazer uma redução de impostos, disse. A relação com o PMDB, segundo a presidente eleita, não transpira desavenças. A ciumeira não é procedente, ressaltou.
SINAL VERDE PARA O LOTEAMENTO
Josie Jeronimo
Será instalada hoje a comissão de transição para ouvir os partidos que apoiaram a candidatura da presidente eleita Dilma Rousseff sobre a expectativa das siglas na divisão de postos na Esplanada dos Ministérios. O acordo foi firmado depois de jantar do vice-presidente eleito Michel Temer (PMDB) com o presidente do PT, José Eduardo Dutra, realizado na noite de ontem na residência oficial da Presidência da Câmara, no Lago Sul.
Os maiores partidos da coligação que deu a vitória ao PT iniciam hoje as negociações sobre a divisão do poder. Dutra e Temer tomarão a frente das conversas para tentar blindar Dilma nesse primeiro momento do assédio dos aliados na divisão de cargos. O objetivo dos encontros partidários que se iniciarão hoje, segundo Dutra, é separar a transição da composição política. Vamos fechar o acordo para que possamos ter um governo tranquilo. Nenhuma intriga será feita entre PMDB e PT, afirmou Temer, negando que o PMDB esteja reclamando que o PT tenha isolado o partido.
De acordo com o presidente do PT, na segunda quinzena de novembro, Dilma receberá uma espécie de relatório com os pedidos dos aliados indicados nomes e cargos e os possíveis conflitos de interesses. Vamos trabalhar para evitar um conflito entre nós. Essa questão dos partidos nós vamos resolver, resumiu Dutra. O vice-presidente eleito brincou que, a partir de hoje, o telefone de Dutra será o mais badalado do país, porque representantes de todas as siglas da coligação o procurarão para tentar fechar o quadro da composição.
Temer convocou integrantes da cúpula do partido para uma conversa hoje. O ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) afirmou que estará na capital para falar com o vice-presidente eleito e ajudará nas negociações com os aliados, se for preciso. Vou conversar internamente com o partido. O Temer chamou. No que eu puder ajudar, vou ajudar, disse Geddel.
No jantar de ontem, Temer e Dutra também discutiram o revezamento do comando das Casas do Congresso. Fecharam um protocolo de rodízio em dois anos, mas não informaram quem comandará no início do governo. Temer e Dilma devem se encontrar hoje, em um café da manhã.