Título: Emergentes irresistíveis
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 18/09/2006, EU & Investimentos, p. D1

Apesar da instabilidade recente nos mercados internacionais, as bolsas de países emergentes continuam atraindo o interesse dos fundos globais de ações, ainda que de maneira mais seletiva. No entanto, as carteiras agora priorizam mercados avaliados como mais resistentes a uma eventual desaceleração da economia mundial. A boa notícia é que o Brasil está entre esses países, com o segundo lugar na preferência dos fundos globais dedicados a emergentes, segundo a consultoria americana Emerging Portfolio.

Na semana passada, conforme a consultoria, os fundos de ações de América Latina e Ásia - com exceção de Japão - foram na contra-mão da onda de resgates ao captarem, mesmo que de maneira modesta. No ano, os fundos de emergentes têm captação de US$ 17 bilhões até dia 6, depois de atingirem US$ 30 bilhões em maio. O valor é inferior aos US$ 20,3 bilhões de 2005, mas ainda assim é um dos maiores desde 1996.

O interesse dos estrangeiros ainda não é suficiente, porém, para o Ibovespa retomar os 40 mil pontos de maio. Neste mês, o saldo de estrangeiros até dia 12 era de R$ 51 milhões positivo. O interessante é que há quem aproveite o momento para lançar fundos voltados para a região, beneficiando-se da queda de preços de alguns papéis.

Um dos reflexos dessa tendência é o crescimento dos fundos que concentram investimentos em Brasil, Rússia, Índia e China, os chamados BRICs, que viraram febre no mercado internacional. Na semana passada, foi a vez do Credit Suisse, um dos maiores grupos financeiros do planeta, e do Saudi Arabia National Commercial Bank (NCB), que segue a tradição financeira islâmica, lançarem esse tipo de fundo a investidores na Europa e Oriente Médio, respectivamente.

A combinação de aplicações nas duas economias que mais crescem no planeta, da China e da Índia, com dois outros gigantes que alimentam sua expansão - o Brasil com recursos naturais, como minério de ferro, e a Rússia com petróleo -, reforça a perspectivas de altos ganhos.

Os fundos BRIC vêm dando mais lucros que o bloco dos emergentes em geral. Há cada vez mais analistas avaliando que as quatro economias têm melhores fundamentos e mais resistência a crises. Apesar da proeminência crescente dos BRICs, outros especialistas são especialmente prudentes.

O termo BRIC foi popularizado pelo banco americano Goldman Sachs num relatório de 2003, no qual sugeria que as quatro maiores economias emergentes podem um dia superar os EUA e o Japão. A HSBC Asset Management foi a primeiro a lançar um fundo especializado nos quatro países, em dezembro de 2004. Hoje, a Bloomberg monitora 30 fundos BRICs, dos quais 75% começaram a operar no ano passado. Atualmente, segundo a Emerging Portfolio, as 13 maiores carteiras têm patrimônio de US$ 10,1 bilhões, comparado a US$ 270 bilhões de todos os fundos de ações dos emergentes.

Os números da Emerging Portfolio mostram ainda que os fundos BRIC receberam neste ano US$ 4,3 bilhões até quarta-feira. Já as carteiras voltadas para cada um desses quarto mercados captaram US$ 8,6 bilhões, representando 70% de todo o dinheiro (US$ 17,1 bilhões) destinado a emergentes. Os patrimônio dos BRIC e das carteiras de cada um dos quatro países já somam US$ 57 bilhões, ou seja, 21% dos ativos em emergentes.

Os fundos BRIC também foram mais resistentes durante a liquidação global nas recentes turbulências. De US$ 15,3 bilhões que saíram dos mercados emergentes entre 13 de maio e 21 de junho, essas carteiras foram afetadas em apenas US$ 558 milhões. Os fundos de investimentos individuais para os quatro países tiveram perda maior, de US$ 4 bilhões.

O fluxo para fundos BRIC diminuiu nas últimas semanas. Enquanto a média de captações era de US$ 300 milhões por semana no primeiro semestre, as retiradas alcançaram US$ 450 milhões desde o começo de maio. O fluxo estagnou nas últimas oito semanas, mas não reduziu o otimismo nessas carteiras, avalia Brad Durham, da Emerging Portfolio.

O retorno das aplicações desses fundos tem sido alta. O Morgan Stanley Capital Internacional BRIC Index (MSCI BRIC) subiu 21% até o dia 13, frente 8,7% do índice de mercados emergentes em geral. Os maiores ganhos ocorrem na Rússia. A alta do preço do petróleo puxou a valorização de 32,3% no Rússia Trading System Index no período. Em seguida, aparecem a China, com 27,1%, a Índia com 19,7%, e o Brasil, com 12,5%.

Michael Konstantinov, chefe da equipe de análise de ações de mercados emergentes do Allianz Dresdner Global, que tem o fundo Bric Stars, vê forte potencial de alta nos quatro países. Ele nota que a relação Preço/Lucro (P/L, indicador que dá uma estimativa de prazo para se ter ganho com os papéis) é de 8 a 15 para 2007 nos BRICs. "Achamos que os investimentos continuarão positivos nos BRICs, com atrativa valorização e ganhos robustos", diz.

Os fundos BRIC investem nos quatro países, mas as estratégias diferem. O HSBC BRIC Freestyle aplica 31% em óleo e gás. O BRIC Stars concentra um terço dos ativos em companhias de outros emergentes, que se beneficiam do crescimento de Brasil, Rússia, Índia e China. Já o Saudi Arabia National Commercial Bank não investe em empresas de álcool, tabaco e jogo.