Título: BCE mostra disposição para cortar juro
Autor: Marsh , Sarah
Fonte: Valor Econômico, 28/06/2012, Finanças, p. C3
Não há nada que impeça o Banco Central Europeu (BCE) de cortar ainda mais as taxas de juros, disse, ontem, Peter Praet, membro do conselho executivo do BCE. A observação reforça as expectativas de que o banco poderá agir já na semana que vem para fazer frente ao arrefecimento das perspectivas de crescimento e contribuir para administrar a crise da zona do euro.
A opinião de Praet seguiu-se à de seu colega Benoit Coeuré, que disse na semana passada que reduzir as taxas era uma das opções a serem discutidas na reunião do BCE, agendada para 5 de julho. "Não está escrito em lugar nenhum que as taxas não podem cair para menos de 1%", disse Praet ao "Financial Times Deutschland". "Elas [as reduções das taxas] são justificadas se contribuírem para garantir a estabilidade dos preços no médio prazo."
Uma sondagem da "Reuters" detectou que 48 de 71 analistas apostam que o BCE diminuirá as taxas de juros na semana que vem. A maioria prevê um corte de 0,25 ponto percentual, para 0,75%.
Os comentários de Praet ocorrem três semanas após o presidente do BCE, Mario Draghi, ter dito que cortes de juros teriam um impacto apenas limitado, devido ao mau funcionamento dos mercados. Até recentemente, analistas duvidavam que o banco baixasse as taxas para níveis inferiores a seu recorde de baixa de 1%, no qual estacionaram desde dezembro. Agora está cada vez mais claro que o BCE caminha em outra direção.
"Este é mais um sinal de que eles estão se preparando para reduzir as taxas", disse Anders Moller Lumhortz, economista do Danske Bank, que prevê que a taxa de refinanciamento será reduzida em 0,25 ponto, para 0,75%, em julho, e que permanecerá baixa por um longo período. "É um sinal de que o BCE aprofundará seus esforços para respaldar a economia."
O próprio Praet tinha advertido contra a criação de uma expectativa exagerada quanto aos efeitos de um corte dos juros, ao dizer: "Cortes das taxas sempre têm impacto, mesmo que limitado."
Um efeito da medida seria a redução imediata das taxas pagas pelos bancos pelos recursos que tomaram do BCE, como o € 1,02 trilhão que receberam nas duas operações de três anos patrocinadas pela Operação de Refinanciamento de Longo Prazo do BCE, conhecida pela sigla em inglês LTRO.
Eles pagam atualmente por esses recursos € 10,2 bilhões em juros anuais, quantia que poderá ser diminuída em € 2,5 bilhões se a taxa básica for reduzida em 0,25 ponto percentual. Bancos espanhóis, italianos e franceses foram os maiores tomadores.
Não há indícios de que o BCE dará atenção aos apelos da Espanha e de outros países pela reativação de seu programa de compra de bônus a fim de forçar a queda do custo do dinheiro na zona do euro.
Os dados de preços divulgados ontem deixaram o BCE com espaço para reduzir os juros. A inflação anual da economia alemã, a maior da zona do euro, diminuiu mais do que o previsto, para 1,7%, em relação ao 1,9% de maio, ajudada pela queda dos preços do petróleo. "Os dados reforçam o já forte argumento pela tomada de medidas pelo BCE na reunião da semana que vem", disse Christian Schulz, economista do banco Berenberg. Draghi disse recentemente não ver sinal de pressão inflacionária no âmbito da zona do euro.
Ao mesmo tempo, o BCE não prevê que um corte de juros resolva os problemas do bloco de 17 países. Josef Bonnicci, do conselho diretor da instituição, disse que a redução teria impacto limitado sobre a economia da zona do euro. "As taxas de juros já estão muito baixas, por isso o impacto de juros ainda inferiores é... limitado."
Dois outros membros do conselho diretor, o austríaco Ewald Nowotny e o eslovaco Jozef Makuch, consideram possível imaginar que a taxa se depósito chegue a zero. O conselho é formado por seis membros do conselho executivo e pelos 17 chefes dos BCs nacionais.
"Há a preocupação de que isso enfatize o fato de que as alternativas de política econômica do BCE estão, na prática, esgotadas", disse o economista James Nixon, do Société Générale. "Minha preocupação é que isso possa realmente minar a confiança, em vez de ter um efeito positivo - de que o BCE esteja, na prática, se agarrando a soluções fantasiosas."
A redução na taxa de depósito - a remuneração paga pelo BCE aos bancos por seus depósitos de um dia - a partir do 0,25% atual seria tão importante quanto a redução da taxa referencial de refinanciamento, segundo analistas.
Os bancos passaram regularmente a deixar cerca de € 800 bilhões depositados no BCE depois da segunda das duas LTROs de 28 de fevereiro - dinheiro que o BCE preferiria ver circulando.
"Sejam quais forem os argumentos do passado, eles foram superados pelo desejo de reduzir os incentivos para usar o fundo de depósito", disse Nixon. "Não faz sentido apenas cortar a taxa de refinanciamento, tem de haver um corte da taxa de depósito."
Ele disse também que uma redução das taxas de juros pode infligir mais problemas aos mercados de empréstimos de curto prazo, que já praticamente deixaram de funcionar. "Há a preocupação de que, se baixar demais, se chegará a uma taxa de juros que sequer cobrirá os custos operacionais dos fundos de empréstimos de curto prazo", disse Nixon.