Título: VCP prevê triplicar produção de celulose
Autor: Vieira, André
Fonte: Valor Econômico, 20/09/2006, Empresas, p. B9
A Votorantim Celulose e Papel (VCP), que anunciou ontem uma operação de troca de ativos com a fabricante americana International Paper (IP), se aproximará do modelo de negócios da Aracruz, num forte sinal de transformação do perfil das empresas brasileiras do setor. Até 2012, a empresa do grupo Votorantim triplicará sua capacidade de produção, atingindo 3 milhões de toneladas por ano, o que a colocará entre as grandes companhias do setor.
A previsão da VCP é produzir 940 mil toneladas da matéria-prima empregada na fabricação de papéis neste ano. A empresa acertou um acordo com a IP para a construção de uma nova fábrica de celulose com capacidade de 1,1 milhão de toneladas em Três Lagoas (MS) e mantém os planos de outra unidade, do mesmo porte, no Rio Grande do Sul.
"A VCP reduz a ênfase em papel não-revestido, mas continuamos com as nossas marcas", disse o diretor-presidente da companhia, José Luciano Penido. "O foco será firmar-se nos próximos anos em celulose de mercado."
Segundo analistas, a mudança de foco da VCP vai em oposição à estratégia tomada pela empresa em 2004, quando, temendo pela entrada de grupos estrangeiros, se associou à Suzano para comprar a Ripasa, uma fabricante nacional de papel e celulose.
As empresas brasileiras estão direcionando sua produção para celulose devido às vantagens comparativas na produção de matéria-prima. Segundo especialistas, o custo caixa, utilizado para medir o grau de competitividade desta indústria, oscila, no Brasil, em US$ 180 por tonelada. Na Europa, varia entre US$ 400 a US$ 500 por tonelada. A celulose é vendida a mais de US$ 600 no mercado.
No Brasil, a Aracruz, que só produz celulose de mercado, ocupa hoje a posição de maior produtora de polpa de eucalipto. Em 2006, fabricará 3,1 milhões de toneladas. A Suzano, que ergue uma segunda linha de produção de celulose em Mucuri (BA), chegará a 2,3 milhões em 2008. A celulose de eucalipto é utilizada pelos produtores de papéis para imprimir e escrever e "tissue" (como guardanapos, lenços e papel higiênico).
Por outro lado, as empresas nacionais vêem dificuldades para a produção de papel. "Com este nível de tributação, problemas logísticos e cambiais, (o papel) não cria neste momento valor", disse Penido. Ele afirmou que a empresa poderá reconsiderar a posição se as condições de mercado mudarem. "Somos uma empresa menor do que a IP, líder global em papéis, que tem uma relação com grandes clientes."
Apesar da mudança, a VCP manteve seu plano estratégico, cujo objetivo é atingir US$ 4 bilhões em receita em 2020, produzindo 4 milhões de toneladas de celulose e 2 milhões de papel. Em 2005, faturou US$ 1,3 bilhão.
Na operação de permuta de ativos, a VCP entregará à International Paper sua fábrica de Luiz Antonio (SP), que produz 350 mil toneladas por ano de papel de imprimir e escrever. O ativo será transferido pela VCP para uma nova empresa, a ser assumida em 1º de fevereiro de 2007 pela IP, quando prevê-se o fim da operação.
Na mesma data, a VCP receberá em troca todos os direitos sobre o empreendimento de Três Lagoas, avaliados, pelo mercado, em US$ 700 milhões. O projeto prevê a construção de uma fábrica de celulose, com capacidade de 1,1 milhão de toneladas, além das florestas de eucaliptos adjacentes e das licenças ambientais.
Além da transferência destes direitos, a IP vai capitalizar US$ 1,15 bilhão em um truste, que ficará encarregado da construção e gerenciamento do projeto. A previsão é que a unidade da VCP entre em operação no início de 2009.
Segundo o diretor financeiro da VCP, Valdir Roque, o valor de US$ 1,15 bilhão é mais do que suficiente para a construção da fábrica. Uma sobra de recursos, segundo ele, servirá para a compra de terras, prevendo uma duplicação de Três Lagoas. Na operação, o Citibank assessorou a IP enquanto a Merrill Lynch ajudou a VCP.
Os investidores ficaram animados com a operação. As ações preferenciais da VCP subiram 9,88%, a maior alta do Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que caiu 1,64%. Os papéis da Aracruz tiveram valorização de 2,81%.
Com o novo posicionamento da VCP, os analistas avaliam os próximos passos da empresa. Um dos alvos seria assumir a totalidade do controle da Aracruz, onde a Votorantim possui um terço das ações. "Não vejo mudança na situação existente", disse Penido. A VCP comprou a fatia na Aracruz, em 2001, por US$ 370 milhões. Hoje, vale US$ 700 milhões.