Título: Gasolina local mais cara afasta risco de reajuste no preço
Autor: Lamucci, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 20/09/2006, Brasil, p. A3

O cenário para a inflação neste ano é cada vez mais benigno. O risco de um reajuste dos combustíveis ainda em 2006 - uma das poucas possíveis fontes de pressão no segundo semestre - está hoje praticamente descartado, o que abre espaço para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechar o ano bem próximo de 3%, ou até abaixo desse nível. Com os atuais preços internacionais do petróleo e o câmbio na casa de R$ 2,17, a gasolina está quase 10% mais cara no Brasil do que nos EUA.

O economista Otávio Aidar, da Rosenberg & Associados, acabou de rever sua previsão para o IPCA neste ano de 3,7% para 3%. Para ele, não há motivos para aumentos dos combustíveis neste ano. Segundo seus cálculos, a gasolina está 9,59% mais cara no Brasil do que nos EUA, considerando os preços em dólar da gasolina da Petrobras na refinaria e os da costa do Golfo do México. As contas foram feitas com base nos números do dia 12 deste mês, dia em que o câmbio era de R$ 2,17 e os contratos futuros de petróleo WTI para outubro estavam cotados a US$ 63,76. Ontem, o dólar fechou em R$ 2,164 e o petróleo, a US$ 61,66.

"Nesse cenário, não é necessário aumentar os preços dos combustíveis depois das eleições", avalia Aidar. "Não há motivos para se preocupar com a inflação." Aidar vê espaço para o Banco Central (BC) manter o ritmo de redução dos juros de 0,5 ponto percentual nas duas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) que ocorrem ainda neste ano. Com dois cortes de 0,5 ponto, a Selic terminaria 2006 em 13,25% ao ano.

O economista Adriano Lopes, do Unibanco, é outro que vê um quadro bastante positivo para a inflação. Lopes ressalva que a volatilidade das cotações do petróleo no mercado internacional é grande, mas não trabalha com a possibilidade de um reajuste dos combustíveis neste ano. Ele revisou sua estimativa para o IPCA neste ano de 3,3% para 3,1%, bem abaixo do centro da meta de 2006, de 4,5%.

Para ele, num cenário de câmbio comportado, reajustes modestos de preços administrados e crescimento moderado da atividade econômica, é possível que o IPCA termine 2006 abaixo de 3%. Com isso, a inflação pode encerrar razoavelmente próxima do piso da banda de oscilação prevista no regime de metas, que tem um alvo central de 4,5% e uma tolerância de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. Aidar também não descarta um IPCA abaixo de 3%.

Os dois apostam em inflação de 4% em 2007, um ano em que o câmbio deve se desvalorizar pouco e a inércia será baixa, uma vez que os Índices Gerais de Preços (IGPs), que corrigem boa parte dos preços administrados, mostram, mais uma vez, uma variação modesta neste ano.

A Tendências Consultoria Integrada, por sua vez, trabalha com um aumento de 6% da gasolina na bomba. Segundo o economista Guilherme Maia, no período que vai de setembro do ano passado para cá, a cotação média da gasolina na refinaria está cerca de 15% superior à registrada naquele momento, quando houve o último reajuste dos combustíveis. Para ele, isso é um sinal de que pode haver um aumento da gasolina ainda neste ano. Mesmo assim, o IPCA fecharia o ano em 3,6%, confortavelmente abaixo do centro da meta, de 4,5%.