Título: Lorenzetti assume responsabilidade por dossiê e deixa comitê da reeleição
Autor: Agostine, Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 20/09/2006, Política, p. A7
O escândalo da compra de um dossiê contra políticos do PSDB na reta final da campanha recaiu ontem sobre o presidente do PT, Ricardo Berzoini. Em nota, a revista "Época" descreveu que foi procurada há duas semanas por Oswaldo Bargas, assessor direto de Berzoini e um dos responsáveis pela elaboração do programa petista à Presidência, para divulgar as denúncias. A notícia causou mal estar dentro do comitê eleitoral e do partido e derrubou Jorge Lorenzetti, analista de risco e mídia da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ex-secretário do Ministério do Trabalho - onde Berzoini foi ministro- e coordenador do capítulo de Trabalho e Emprego do programa de governo de Lula, Bargas marcou um encontro com o jornalista Ricardo Mendonça em um hotel em São Paulo, para oferecer "farta documentação de acusações sérias contra políticos de renome", que poderiam ser comprovadas por meio de fotos e vídeos. Na reunião também participou Jorge Lorenzetti.
Bargas perguntou se havia interesse da revista em publicar o dossiê. O assessor da campanha de Lula disse que não podia especificar quais eram as denúncias nem o denunciante e relatou que os fatos "seriam fortes o suficiente para desmoralizar o candidato do PSDB ao governo paulista, José Serra, e o ex-ministro da Saúde Barjas Negri".
Na nota divulgada pela revista, durante o encontro "Bargas e Lorenzetti disseram várias vezes que aquela reunião nada tinha a ver com o PT nem com o governo" e que o encontro servia apenas para sondar o interesse da revista. No PT, apenas Berzoini havia sido avisado do encontro, "mas sem ter conhecimento do conteúdo do material", disseram os dois assessores. Aloizio Mercadante, candidato ao governo paulista, não teria relação com a reunião, nem com as denúncias.
Como o jornalista não se comprometeu em publicar as acusações, Bargas telefonou horas depois para para cancelar a divulgação do material. O encontro foi no dia 6. Uma semana depois, a revista "IstoÉ" publicou a entrevista em que Darci e Luiz Antonio Vedoin, os donos da Planan, acusavam Serra e Barjas Negri.
A revista "Época" pronunciou-se depois do depoimento à Polícia Federal, o advogado Gedimar Pereira Passos, envolvendo a publicação. Passos disse ter sido contratado pelo PT para negociar um dossiê com denúncias contra Serra.
Berzoini cancelou uma entrevista coletiva em cima da hora e comunicou-se por nota. Em dez linhas, o petista afirmou que soube que um integrante da campanha de Lula entrou em contato com a revista para "tratar de interesse jornalístico", mas "jamais teve ciência" do conteúdo do encontro. "Manifesto, mais uma vez, a minha indignação com esse episódio, e condeno, como sempre condenei, o denuncismo e a baixaria em processos eleitorais", disse Berzoini.
A culpa toda recaiu sobre Jorge Lorenzetti, que assumiu sozinho a responsabilidade. Em carta encaminhada ao presidente do PT, o assessor reconheceu ter errado e pediu seu desligamento da campanha de Lula. "Julgo ter extrapolado os limites de minhas atribuições como assessor de risco e mídia da Coligação 'A Força do Povo', mas, nada obstante, afirmo taxativamente que em momento algum autorizei o emprego de qualquer tipo de negociação financeira na busca de informações relacionadas a adversários políticos", disse na nota.
Lorenzetti afirmou que sua participação "circunscreveu-se tão somente em solicitar que fosse averiguada a autenticidade dessas informações" para "corrigir injustiças" contra o PT na Máfia das Sanguessugas. O assessor disse ainda que está à disposição da Polícia Federal para esclarecimentos.