Título: CNA vislumbra dificuldades no campo em 2007
Autor: Zanatta, Mauro
Fonte: Valor Econômico, 22/09/2006, Agronegócios, p. B14

A renda dos produtores rurais do país dá sinais de ligeira recuperação. Mas a situação deve permanecer difícil na atual safra 2006/07, iniciada em julho, para Estados com logística mais precária, como o Mato Grosso, e para culturas com custos de produção ainda em desequilíbrio, sobretudo a soja.

Estimativas conjuntas divulgadas ontem (dia 21) pela Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) e pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da USP (Cepea) mostram que o PIB do setor deve recuar 1,88% em 2006 e o faturamento bruto da agropecuária encolherá 4,3%. "Mas a queda do PIB pode ser menos acentuada se a recuperação dos preços, principalmente no complexo carnes, for confirmada no segundo semestre", afirmou o superintendente técnico da CNA, Ricardo Cotta.

Em forte contraste com os "anos dourados" entre 2002 e 2004, o PIB do agronegócio deve somar R$ 527,54 bilhões neste ano - em 2005, foram R$ 537,63 bilhões. A crise de renda ainda deve custar R$ 10 bilhões ao setor. O PIB do setor primário da agropecuária deve recuar R$ 5,7 bilhões (3,7%), passando de R$ 153 bilhões para R$ 147,34 bilhões.

As projeções para este ano, baseadas no desempenho registrado no primeiro semestre, indicam que a crise de renda nos segmentos de grãos e da pecuária, ainda muito acentuada, continua a atingir os segmentos agroindustriais. O PIB da indústria de insumos, por exemplo, deve ter retração de 2,36% em 2006. O segundo resultado negativo consecutivo do PIB do agronegócio, que registrou uma retração de 4,66% em 2005, deve levar a uma reduzir em sua participação no PIB global do Brasil em até 1,3 ponto percentual, segundo as estimativas. A fatia do setor deve cair de 27,9% para 26,5% neste ano.

A CNA também arriscou projetar uma redução global de 10% na produção de grãos na atual safra. "A crise de rentabilidade em 2007 será mais localizada, em Estados mais distantes e focada na soja por causa de gargalos burocráticos, como a falta de defensivos genéricos e a demora na liberação de novos transgênicos, além da falta das medidas estruturantes e do câmbio desfavorável", afirmou Cotta. Com base em projeções de consultorias, ele previu uma redução de 20% na produção de soja de Mato Grosso e a manutenção do volume no Paraná. "O milho deve ter uma queda entre 3% a 5%, mas o algodão pode aumentar até 15%". De 2004 a 2006, o setor perdeu R$ 36,5 bilhões em renda, estimou Cotta.

A deterioração do PIB, ainda que em menor grau, é confirmada pela queda significativa do valor bruto da produção (VBP), que mede o faturamento dos 25 principais produtos agropecuários. O recuo de 4,3% neste ano será puxado pela pecuária (6,8%), sobretudo no segmento de suínos (14%). Nas lavouras, que devem ter uma retração de 2,3% no faturamento, há problemas nos desempenhos da soja (15,6%), arroz (28%), algodão (31%), trigo (25%) e uva (27%).

"Se o governo der R$ 1 bilhão para a soja, não vai adiantar. Vão continuar os problemas de infra-estrutura de Mato Grosso e do médio norte do país, que levam embora todos os possíveis ganhos potenciais", afirmou Ricardo Cotta. Pelo lado positivo, devem registrar boa performance as culturas de laranja (40,5%), cana-de-açúcar (21,7%), feijão (16,7%), fumo (8,8%), milho (4%), café (3%) e mandioca (1,4%). O superintendente da CNA alertou, porém, para o elevado grau de endividamento do setor e para a concentração de vencimentos no próximo ano. "Falta acesso ao crédito", pontuou.