Título: A bomba no colo de Dilma
Autor: Rothenburg, Denise
Fonte: Correio Braziliense, 09/11/2010, Política, p. 2

Entrevista :: Raul Velloso

Para o especialista em finanças públicas, a conta do alto consumo pautado nos gastos federais desenfreados será cobrada nos primeiros meses da gestão da presidente eleita

Luciana Bezerra Especial para o Correio

Boa parte do sucesso do primeiro ano do governo da presidente eleita, Dilma Rousseff, depende do resultado da reunião do G-20, à qual ela comparecerá, na companhia do presidente Lula, nos dias 11 e 12, na Coreia do Sul. Nações emergentes, como o Brasil, esperam que dali saia uma orientação para que EUA e China, por exemplo, desistam de medidas que têm efeito negativo na economia de outros países.

O principal problema apontado por especialistas é a excessiva desvalorização do dólar, o que facilita as exportações americanas e dificulta as vendas de mercadorias brasileiras para o exterior. Com o real valorizado, os empresários recebem uma importância menor na hora de trocar os dólares ganhos na exportação. Se a reunião de Seul contribuir para o arrefecimento da guerra cambial, as exportações poderiam voltar a crescer e diminuiria a necessidade de o Banco Central acumular reservas adicionais. O custo para manter o elevado volume das reservas cambiais, de R$ 50 bilhões por ano, não subiria.

O excessivo peso financeiro das reservas ¿é uma bomba de efeito retardado¿, disse o economista Raul Velloso, especialista em finanças públicas. Em entrevista ao Correio, ele enumera outros quatro problemas financeiros que a presidente terá que enfrentar. Um deles é a herança da campanha da oposição: ¿Pressão para elevar o salário mínimo para R$ 600, corrigir as aposentadorias em 10% e pagar mais um salário para o Bolsa Família¿.

Há alguma `herança maldita¿ à espera da presidente Dilma? O problema cambial que a Dilma vai receber do Lula é uma bomba de efeito retardado. No começo de tudo, a taxa de juros elevada atraiu uma avalanche de dólares de investidores estrangeiros, para deleite da equipe econômica. Os dólares entraram no Brasil, compraram reais, e esses reais foram aplicados a uma taxa de remuneração espetacular, comparada com seus países de origem. O Banco Central foi comprando esses dólares para guardar sob a forma de reservas (o que foi positivo) e, a despeito disso, provocou uma supervalorização do real. Hoje caminhamos para um volume de reservas no valor de quase US$ 300 bilhões.

Isso tem sido apresentado como demonstração do êxito da política econômica. Para manter esse nível de reservas custa caro. O país é obrigado a gastar R$ 50 bilhões por ano ¿ próximo do dobro do que o governo investiu no ano passado (R$ 34 bilhões), um pouco mais do que se aplicou na saúde (R$ 42 bilhões) e quase quatro vezes os gastos com o Bolsa Família (R$ 13 bilhões). O financiamento do excedente de dólares é feito por meio de endividamento público.

Então basta conseguir R$ 50 bilhões extras que está tudo resolvido? Eu falei apenas de um dos problemas financeiros que a presidente Dilma terá daqui a pouco menos de dois meses. Os outros são: pressão para elevar o salário mínimo para R$ 600, corrigir as aposentadorias em 10% e pagar mais um salário para o Bolsa Família, conforme propôs a oposição; aprovação de uma série de projetos que implicam aumento de gastos aguardando na fila do Congresso; pedidos de subsídios por parte de setores da indústria prejudicados pela supervalorização do real e desdobramentos do atraso na solução da crise financeira internacional, como a inundação do mundo com mais US$ 600 bilhões prometidos pelo presidente Barack Obama.

Mas nós não havíamos ultrapassado a crise? Lembre-se de que estávamos no período eleitoral. Agora chegou a conta. O modelo de ¿alto consumo a qualquer custo¿, graças aos gastos públicos, anestesiou o impacto da crise internacional. A supervalorização do real cai como uma luva, pois com o dólar barato o consumo cresce por meio do estímulo à importação. O real caro derruba as exportações, uma vez que nossos produtores recebem cada vez menos reais por dólar, em troca das mercadorias vendidas lá fora.

Quem paga a conta e quem ganha com essa lógica? Primeiro, a indústria de transformação, como a de eletroeletrônicos, por exemplo. O fabricante de computador toma prejuízo duas vezes: primeiro quando o consumidor resolve importar porque é mais barato; segundo, quando o preço cai lá fora, como está acontecendo agora, forçando uma redução aqui dentro. Os ganhadores são os consumidores de importados e os produtores do setor de serviços, em que não é possível importar, e, principalmente, os exportadores de commodities minerais e de alimentos, cujos preços estão em alta no mundo e não há qualquer expectativa contrária a essa maré que já dura quase 10 anos.

Dá para viver assim durante um bom tempo, não? Eu ¿ e muita gente do ramo ¿ não penso assim. Nesse esquema, o peso da indústria no PIB, que era de 27%, algo como um terço, caiu para 15%, o que caracteriza um processo de desindustrialização. Além disso, o superavit comercial, de US$ 22,4 bilhões em setembro de 2005, tornou-se um deficit de US$ 25,8 bilhões nos primeiros nove meses deste ano (uma mudança para pior de quase US$ 50 bilhões). Nessa marcha, sem alteração de rumo a curto prazo, retornaremos ao cenário externo imediatamente posterior ao real, quando se dizia que a virtude estava no deficit em conta-corrente (resultado de todas as transações comerciais e financeiras com o exterior), pois essa era a fórmula para atrair capitais para o crescimento econômico. As consequências são conhecidas.

O que fazer? Sem poupança não há crescimento. E a poupança é resultado de menores gastos públicos, um assunto que não combinava com o calendário eleitoral até o último dia 31. Aliás, a explicação para a vitória da presidente Dilma, segundo os cientistas políticos, é a promessa de continuidade do consumo. Isso deve mesmo render votos, mas crescimento sustentado só se faz com contas realistas. O modelo atual, de gastos públicos descontrolados, resulta num alto custo fiscal. Por exemplo: o Brasil gasta mais com salário de pessoal do que países com perfil equivalente, denunciando um empreguismo crônico.

A volta da CPMF resolveria uma parte das dificuldades? É pouco, e acabaria sendo usada para pagar outros rombos e não o da saúde. Na edição de sábado, o Correio diz que os restos a pagar (despesas que são empurradas para a frente) deste ano serão de R$ 50 bilhões. Somando todas as necessidade de mais recursos chegamos a um número acima de R$ 100 bilhões. O curioso é que desta vez a economia ¿ e todos esses detalhes tão interessantes para o bolso dos cidadãos ¿ não foi discutida na campanha eleitoral, não é?