Título: CPI busca recursos de Cachoeira no exterior
Autor: Junqueira , Caio
Fonte: Valor Econômico, 04/07/2012, Política, p. A5
Com ajuda do Departamento de Recuperação de Ativos do Ministério da Justiça, a CPI do Cachoeira já tem em mãos informações sobre parte dos recursos que o empresário Carlinhos Cachoeira remeteu ao exterior. Trata-se de pelo menos R$ 1 milhão depositados em um banco nos Estados Unidos, cujo bloqueio tem sido articulado entre o Ministério da Justiça e integrantes da CPI.
O valor, porém, frustrou alguns parlamentares, em especial do PT, que apostam na localização e no bloqueio de bens do empresário no exterior como estratégia para fazê-lo falar "tudo o que sabe". Tanto que ontem ficou decidido que será aprovada uma reconvocação sua para depor na CPI, na expectativa de que, até que seja agendada a data, o Ministério da Justiça consiga ampliar o valor localizado.
O problema é que, perto dos negócios de Cachoeira no Brasil, o montante de R$ 1 milhão é irrisório. Além disso, Cachoeira, tão logo começaram a circular informações de uma possível operação da Polícia Federal, teria, segundo parlamentares, remanejado seus recursos para paraísos fiscais. Isso dificulta sua localização, que depende de acordos internacionais de cooperação para ter a busca facilitada.
O relator da comissão, Odair Cunha (PT-MG), planeja inclusive uma viagem a Miami, nos Estados Unidos, durante o recesso parlamentar para conversar com autoridades americanas sobre o patrimônio e o fluxo de dinheiro de Cachoeira. Era na cidade que ele tinha uma residência, vendida posteriormente a um sul-coreano.
Entretanto, a viagem só poderá ser feita depois de a comissão decidir se irá ou não trabalhar durante o recesso. A dificuldade é que, para isso ocorrer, é necessária a convocação extraordinária de todo o Legislativo. O assunto, inconclusivo, foi debatido ontem em uma das muitas reuniões que ocorreram sobre a sessão administrativa de amanhã.
A mais relevante dessas reuniões ocorreu entre integrantes da base governista na CPI, como PT, PMDB e PSB. Eles decidiram que os partidos deverão, amanhã, aprovar um "pacote" de requerimentos de convocação.
Dentre esses requerimentos estão os que pretendem levar à CPI o ex-proprietário da construtora Delta, Fernando Cavendish; o ex-diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antonio Pagot; Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, ex-diretor da Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa), vinculado ao governo de São Paulo; o prefeito de Palmas, Raul Filho (PT), flagrado em vídeo com Cachoeira; o empresário Adir Assad; e os acusados de ligação com Cachoeira, caso de Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO), Sandes Júnior (PP-GO), Rubens Otoni (PT-GO) e Stepan Nercessian (RJ).
A avaliação dos deputados presentes ao encontro é de que estão sendo pressionados pela opinião pública para que essas pessoas sejam convocadas, em especial Cavendish e Pagot. No entanto, para evitar uma vitória da oposição e dos chamados "independentes", que também defendem a convocação de ambos, optou-se por ampliar esse leque para o mais forte reduto tucano do país: São Paulo.
Por isso consta nesse rol Paulo Preto e Adir Assad. Nas eleições presidenciais de 2010, Paulo Preto foi citado pela campanha petista, inclusive pela então candidata Dilma Rousseff, como arrecadador informal de recursos financeiros para o PSDB. A atual presidente chegou a dizer em um debate que seu adversário e atual candidato a prefeito de São Paulo, José Serra, que negou conhecê-lo, deveria lembrar do "seu assessor que fugiu com R$ 4 milhões, dinheiro da sua campanha". Souza sempre negou a acusação.
Já Adir Assad é um empresário paulista do ramo de entretenimento apontado como controlador de empresas laranjas que receberam repasses da Delta.
O "pacote", porém, não foi unânime. Alguns parlamentares acham que abrir muito o leque de investigação é uma estratégia arriscada e que o correto é barrar todas elas. Nesse sentido, só devem ser convocados os que comprovadamente tiveram algum envolvimento com Carlos Cachoeira. Essa posição, minoritária, faz com que o pacote, até amanhã, possa ser revisto.
Integrantes do PSDB disseram concordar com todas as convocações. Mas querem que seja pelo menos apreciada a ida do deputado federal José di Filippi (PT-SP), tesoureiro da campanha de Dilma.