Título: Cosipar escoa minério pelo rio Tocantins
Autor: Góes, Francisco
Fonte: Valor Econômico, 27/09/2006, Empresas, p. B10

O Grupo Cosipar, produtor de ferro-gusa em Marabá, no Pará, começou ontem os testes para escoar minério de ferro por barcaças pelo rio Tocantins. O projeto é ousado e sua competitividade a médio prazo depende da construção de duas eclusas e de um canal na usina de Tucuruí para permitir a transposição do rio pelas embarcações. A obra encontra-se paralisada e sua conclusão exigirá, a valores presentes, investimentos de R$ 611 milhões pelo governo federal. Deste total, apenas R$ 50 milhões estão previstos para as eclusas no orçamento de 2007.

As eclusas de Tucuruí são o principal gargalo da hidrovia dos rios Tocantins e Araguaia. A conclusão da obra permitiria a ligação direta de Marabá, pólo produtor de ferro gusa, à capital do Estado, Belém. A hidrovia também pode estimular a criação de um novo eixo de desenvolvimento para a exportação, alternativo à Estrada de Ferro de Carajás (EFC), que passa por Marabá e desemboca no porto de Itaquí, em São Luís (MA).

"Queremos chamar a atenção para a importância do projeto, que representa algo novo em termos de logística no Brasil", diz Luiz Carlos Monteiro, presidente da Cosipar. Ele disse que ontem a empresa começou a operar de forma experimental as barcaças carregadas com minério pelo rio Tocantins. A logística é complexa e exige algo que, em transporte de cargas, encarece muito a operação: o transbordo.

O projeto da Cosipar consiste em carregar as barcaças em Marabá, onde a empresa produz 500 mil toneladas anuais de ferro-gusa. As embarcações navegarão o Tocantins em trecho de 160 quilômetros até o lago de Tucuruí. No local, o minério e, em uma segunda etapa, o ferro-gusa produzido em Marabá serão transferidos para caminhões. Os veículos vão rodar 4,5 quilômetros e despejarão o produto novamente em comboios de embarcações que seguirão outros 300 quilômetros de viagem até o porto de Vila do Conde, em Barcarena.

A Cosipar comprou 16 barcaças e quatro empurradores com investimento de US$ 10 milhões. As embarcações serão usadas no trecho entre Marabá e Tucuruí. De Tucuruí até Barcarena a operação será feita com comboios de navios afretados, diz Monteiro.

Ele afirma que todo o projeto logístico está associado à construção de uma usina integrada para a produção de ferro-gusa e aço com capacidade de 3 milhões de toneladas por ano. O empreendimento, controlado pela Cosipar, deve começar com uma produção de 500 mil toneladas por ano, já a partir de 2006, diz Monteiro. O projeto também prevê a construção de um porto em Barcarena.

O executivo estima que a operação com o transbordo seja viável até um volume de 2,8 milhões de toneladas por ano, entre minério e ferro gusa. Acima deste volume o projeto dependeria da conclusão das eclusas para tornar-se viável. Martinho Cândido, diretor de infra-estrutura aquaviária do Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes (Dnit), do Ministério dos Transportes, diz que o governo analisa a possibilidade de uma parceria com a Eletronorte, responsável pela usina de Tucuruí, para concluir as obras das eclusas.

A idéia é aproveitar parte da estrutura montada na expansão de Tucuruí para retomar as obras das eclusas. A Eletronorte não se manifesta sobre o assunto por entender que essa é uma decisão do governo. Em 2006, havia previsão de investimento de R$ 138 milhões para as obras das eclusas, mas nada até agora foi desembolsado.

Deste total, R$ 70 milhões estavam ligados ao Ministério de Minas e Energia, que entendeu não ser possível aplicar estes recursos na construção das eclusas, disse Cândido. A outra parte do investimento, de R$ 68 milhões, poderia ser aplicada na retomada da obra, afirma. "A existência da hidrovia terá papel importante como ente regulador de mercado." No futuro, a hidrovia do Tocantins poderia movimentar contêiner refrigerado, carga em caminhões e gado.

A perspectiva de operação comercial da hidrovia do Tocantins preocupa organizações não governamentais, como a Fase. Luiz Bressan, representante da Fase em Marabá, disse que a entidade protocolou pedido de informações sobre o projeto da Cosipar na Secretaria de Meio Ambiente do município. Bressan afirmou que a idéia é discutir o tema em outras esferas.