Título: PT abandona prefeito de Palmas na CPI
Autor: Junqueira , Caio
Fonte: Valor Econômico, 11/07/2012, Política, p. A8

O PT abandonou ontem na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira o correligionário e prefeito de Palmas, Raul Filho. Sob essa condição, ele ficou exposto ao livre ataque da oposição e da base aliada, que chegou a pedir a sua prisão.

Nem a repetição da estratégia do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), e de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), de disponibilizar aos parlamentares todo seu sigilo bancário, fiscal e telefônico foi suficiente para amenizar sua situação política. As duras falas surgiram de todos os lados.

O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) afirmou que Filho representava o" padrão degradado" da política nacional, por ter passado por vários partidos antes do PT, como PDS, PFL, PSDB e PPS. O deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) acusou-o de "ofender a inteligência" da CPI. Tamanho era o isolamento de Filho que, em dois momentos, foi necessária a intervenção de Paulo Teixeira, que conduziu a maior parte da sessão, para acalmar a virulência dos parlamentares.

Na primeira, quando o deputado Rubens Bueno (PPS-PR) o questionava sobre o vídeo em que ele aparece negociando com o empresário Carlos Cachoeira doações para sua campanha e negócios no governo. Foi quando o secretário de Desenvolvimento Social de Palmas, Roberto Suarte, isentado na última bancada, interrompeu-o e disse algo inaudível. Acabou sendo retirado do plenário da comissão pela Polícia Legislativa. "Deputado, só peço que possamos continuar os depoimentos, as perguntas num nível mais adequado, em uma atmosfera de respeito" disse o petista. Bueno acusou-o de censura.

Em outro momento, o deputado Sílvio Costa (PTB-PE) acusou o prefeito de mentiroso e cínico por não assumir ter recebido propina de Cachoeira. Teixeira voltou a pedir calma e novamente foi acusado de censura.

Entretanto, não foi só o isolamento provocado pelo PT que agravou a situação de Filho. Contribuiu para isso o fato de ele não ter levado dados para reforçar sua defesa. Em diversas vezes ele alegou desconhecer situações inerentes à sua administração, como as empresas ou pessoas que fechavam alguns dos contratos com empresas.

Por outro lado, confirmou haver nepotismo, já que uma cunhada sua era chefe da comissão de licitação que celebrou contrato com a construtora Delta e outro cunhado responsável pela fiscalização. Confirmou ainda que assessores de sua mulher, que é deputada estadual, receberam R$ 120 mil da construtora. Também não deu justificativas para os contratos sem licitação feitos com a Delta, que tiveram oposição do tribunal de contas regional e do Ministério Público. No aspecto político, explorou na sua fala inicial o má estado com que assumiu Palmas, antes gerida pelo DEM.

Após o depoimento, era flagrante a frágil situação política de Raul Filho, tanto no seu partido quanto na CPI. "Ele tinha que ter vindo aqui e convencer a todos, trazer argumentos. Mas eu pelo menos não me senti convencido", disse Paulo Teixeira que, porém, defendeu a convocação do governador de Tocantins, Siqueira Campos (PSDB), adversário político de Raul Filho. Ainda em relação ao prefeito, Odair Cunha foi na mesma linha. "Há contradições importantes no depoimento dele. Ele não esclareceu nem convenceu com os argumentos que trouxe."

O prefeito deve ser expulso do PT, por onde foi eleito em 2004 e reeleito em 2008.

Antes dos depoimentos, a oposição cobrou do comando da CPI que uma ação mais incisiva sobre os bancos HSBC e Bradesco que, segundo eles, estão atrasando o envio dos sigilos da Delta para a CPI.

"O banco HSBC não está cumprindo com o poder da CPI e com o que o Banco Central determina. A outra questão é a conta da Delta no Bradesco no Rio de Janeiro, cujos dados também não chegaram", disse o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS).

Segundo ele, são as duas principais contas da construtora, apontada pela Polícia Federal como integrante do esquema criminoso montado por Cachoeira, acusado de atuar no jogo ilegal. A assessoria do HSBC informou que encaminhou à CPI tudo o que lhe foi solicitado.