Título: Governo estabelece prazo de 90 dias para apuração
Autor: Rittner, Daniel
Fonte: Valor Econômico, 02/10/2006, Brasil, p. A22

Mais de 48 horas após o desastre no vôo 1907 da Gol, no qual morreram 149 passageiros e seis tripulantes, as investigações avançaram muito pouco em torno das causas do acidente. Um comitê formado pelo Comando da Aeronáutica, pela Infraero e pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) estabeleceu prazo de 90 dias para entregar o primeiro relatório.

Os técnicos envolvidos nas investigações têm expectativa de que a análise das gravações das instruções dadas pelos controladores de vôo possa reforçar alguma linha de raciocínio. As instruções e os eventuais diálogos entre os controladores do Cindacta-I e Cindacta-IV, responsáveis pelos sistemas de radares, e os pilotos do avião da Gol e do Legacy da Embraer já estão em posse dos investigadores. Essas gravações podem comprovar se o piloto do Legacy descumpriu a recomendação das torres de controle para se manter em altitude diferente à do Boeing. Como em autopistas virtuais, os aviões devem voar em faixas diferentes de mil pés (cerca de 300 metros), dependendo da direção que seguem.

As suspeitas iniciais recaem sobre uma eventual invasão do espaço aéreo do Boeing da Gol pelo Legacy, mas isso ainda não está confirmado. Também não explica por que o sistema de radares anticolisão, existente nas duas aeronaves, não evitou o choque - confirmado oficialmente pela Aeronáutica apenas ontem. Por fim, existe a dificuldade de entender como o Legacy conseguiu fazer um pouso de emergência, no sul do Pará, enquanto o avião da Gol teria caído "de bico" no chão - hipótese que ganha força pelo fato de os destroços estarem concentrados.

Já foram recolhidos e também estão sob análise os equipamentos de gravação de voz e de dados do Legacy. A caixa-preta do avião do Gol ainda não havia sido encontrada. Os militares que trabalham no local do acidente retiraram dois corpos, ainda não identificados, que foram transportados para o campo de provas da Serra do Cachimbo e devem seguir para Brasília hoje.

O presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, disse acreditar na possibilidade de que a ponta da asa da aeronave da Embraer tenha atingido o estabilizador traseiro do Boeing. Trata-se da "asa vertical" localizada na cauda do avião, capaz de desestabilizar completamente o jato. Para ele, essa é a hipótese mais plausível, mas também é possível que a asa do Legacy tenha "rasgado" a parte de baixo do Boeing, prejudicando o sistema hidráulico ou o sistema elétrico da aeronave.

O cenário de desespero dos familiares e amigos das vítimas do vôo 1907 foi forte em Manaus. Acomodados no hotel Taj Mahal, na região central da capital, eles mostraram insatisfação com a demora na divulgação de notícias. "O que incomoda a gente é a falta de informações. Nós passamos o dia todo aqui sem resolver nada", disse Alessandro Naranjo, um dos mais abalados. Sua esposa, a enfermeira Elizabeth Barbosa da Costa, e sua filha Rayssa Costa Naranjo, de dois anos de idade, estavam no vôo.

O engenheiro Laza Gonçalves Sobrinho, 59 anos, embarcou no vôo 1907 graças a um presente de última hora da irmã. Por volta das 11h da manhã, Joana comprou para Laza, que morava em Manaus, uma passagem no vôo da Gol. Os oito irmãos (sete dos quais moram em Brasília) esperavam para comemorar, em um jantar que reuniria toda a família, o aniversário de 80 anos da mãe - a única que, na madrugada de sábado, ainda não sabia do acidente. "Deus sabe o que faz: pelo menos ele veio feliz porque vinha ver a família e se sentiu amado pela família", disse Joana.

Participam das buscas dois helicópteros H-1H, dois helicópteros Black Hawk, duas aeronaves R-99, um Bandeirante e um C-130 Hércules. Por volta das 22 horas de ontem, o Comando da Aeronáutica informou que não havia sobreviventes.