Título: Paulista garante que vai participar da campanha
Autor: Agostine, Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 03/10/2006, Política, p. A10

O governador eleito de São Paulo, José Serra (PSDB), disse ontem que tem duas prioridades no momento: preparar um bom governo, para "responder aos votos" que teve da população, e ajudar Geraldo Alckmin a se eleger no segundo turno, para "responder" ao seu partido. "As duas coisas são prioritárias", afirmou Serra, acrescentando que, se for necessário, pode viajar pelo Brasil para auxiliar o candidato de seu partido à presidência. Ele disse que será um "militante" e não um "comandante" da campanha de Alckmin.

Serra falou com a imprensa no jardim de sua casa, no Alto de Pinheiros, onde algumas árvores foram plantadas ontem. Foi alguma promessa? "Não propriamente, mas pode até ser encarado como tal. É o começo da primavera, plantar está ligado ao futuro e eu estou muito preocupado e ligado ao futuro. Isso me pareceu simbolicamente adequado".

As mudas foram levadas pelo deputado federal Xico Graziano, um dos três tucanos que o visitaram à tarde, num sinal de que a articulação política visando a definição da equipe de governo já começou. Os outros dois foram o vice-governador eleito, Alberto Goldman, o deputado federal eleito Walter Feldman.

"Eu chamei o Goldman para trocar figurinhas", disse Serra, sem especificar o que foi discutido. "Nós vamos fazer com calma a transição e também a escolha das pessoas que serão convidadas". Ele afirmou ter nomes em mente, mas ressaltou "que tudo tem seu tempo". Segundo o governador eleito, "Feldman chegou sem combinar, mas é sempre muito bem vindo". O deputado foi secretário municipal de Subprefeituras na gestão de Serra na Prefeitura.

O futuro governador disse que ficou muito satisfeito com o tamanho e a qualidade da bancada federal do PSDB e de sua coligação. Para Serra, será viável governar com a Assembléia Legislativa eleita ontem. "Fácil nunca é, Executivo e Legislativo sempre tem que se entender, mas acho que nós vamos ter uma maioria confortável."

Serra destacou que pretende participar da campanha nacional e preparar a transição para o governo de São Paulo. "É um governo imenso, com um orçamento imenso. Nós vamos tomar pé de toda a situação em detalhe." O governador eleito disse que ainda não sabe se vai mexer muito na estrutura administrativa do Estado.

O tucano contou que recebeu uma ligação do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, para "cumprimentá-lo pela eleição". Serra afirmou que, nos últimos dias, já esperava o segundo turno na eleição nacional, porque a tendência já havia sido indicada pelo tracking (as pesquisas feitas por meio de entrevistas telefônicas para os partidos). "Nós já tínhamos a expectativa de que houvesse segundo turno. Agora, como se diz em castelhano, é 'borrón y cuenta nueva', ou seja, apaga-se a lousa e se fazem novas contas." Para ele, "é evidente" que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva "não tem a mesma força que tinha quando entrou no primeiro turno".

Bastante sorridente, Serra disse que praticamente não dormiu nada à noite. Ficou respondendo e-mails e acompanhando os resultados das eleições pela Internet. Também leu "um ensaio de Renato Lessa sobre a República Velha". "Mas a minha leitura é sempre muito anárquica", explicou ele, que se dedica a vários livros ao mesmo tempo. No momento, ele também lê uma obra que explica "por que as zebras não se estressam".

Em seu jardim, Serra plantou mudas de acerola, jabuticaba, pêssego, nectarina, maçã, pêra e manga. Segundo ele, um de seus objetivos ao espalhar árvores frutíferas no jardim é atrair o neto Antônio para sua casa. E pé de chuchu, foi plantado algum? "Nenhum, porque não é fruta. Aqui são só árvores frutíferas", respondeu ele, bem humorado e satisfeito com os mais de 12 milhões de votos que recebeu.

Depois da entrevista, concedida no fim da tarde, Serra tinha programada uma visita à Congregação Israelita Paulista (CIP). Ontem foi o Dia do Perdão (Yom Kippur), uma das datas sagradas judaicas.