Título: Multiplicação da previdência
Autor: Fariello, Danilo
Fonte: Valor Econômico, 15/01/2007, Eu & Investimentos, p. D1
Com a captação líquida recorde de R$ 10,66 bilhões em 2006, os planos de previdência privada aberta acumulam crescimento de quase seis vezes em quatro anos. O patrimônio das carteiras PGBL e VGBL saltou de R$ 10,3 bilhões em dezembro de 2002 para R$ 69,5 bilhões no fim do ano, segundo dados do site Fortuna. Mais do que a boa rentabilidade oferecida pela taxa de juros ao longo do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, esse avanço foi proporcionado principalmente por novos aportes dos participantes. Segundo o site, do crescimento de RS 59,2 bilhões no período, 64% significam depósitos e apenas 36% referem-se à rentabilidade.
Uma lista de fatores levou ao avanço do setor no período. O principal, segundo executivos, foi o lançamento do Vida Gerador de Benefícios Livres (VGBL) no fim de 2002, que se tornou um dos mais procurados investimentos de longo prazo e melhor alternativa para um maior número de trabalhadores sem carteira assinada ou grandes investidores garantirem a aposentadoria. Segundo a Associação Nacional da Previdência Privada (Anapp), apenas no ano passado, o VGBL respondeu por 66% da captação de todo o setor.
O VGBL é o grande fenômeno porque abriu espaço a um grande contingente à previdência, diz Renato Russo, vice-presidente de previdência da SulAmérica. "Muito dinheiro do VGBL veio de realocação de investimentos, em busca de vantagens tributárias", diz Osvaldo do Nascimento, presidente da Anapp.
Ninguém esperava tanto sucesso do VGBL e, por conta disso, o crescimento do setor andou em descompasso no período, com o crescimento desse produto em detrimento dos demais, indica Marcelo D'Agosto, sócio do Fortuna.
Segundo Russo, da SulAmérica, houve dois movimentos que levaram muitos aplicadores ao VGBL. Inicialmente, houve uma forte realocação de recursos oriundos da caderneta de poupança ou de fundos de investimento. E, mais recentemente, muitos aplicadores de alta renda começaram a procurar o produto como meio de planejamento sucessório. Isso porque, no VGBL, em caso de morte do aplicador, os recursos serão sacados pelos beneficiários sem ter de passar pelo inventário, o que facilita o processo de transferência. Por isso, o VGBL passou a chamar atenção de escritórios de advocacia e private bankers ao gerir fortunas.
A estabilidade das regras do setor nos últimos dez anos, com ligeiros ajustes, fez o mercado conquistar a confiança do aplicador, diz Marco Antonio Rossi, da Bradesco Vida e Previdência. Para Nascimento, os aperfeiçoamentos regulatórios no período, como a instituição da tabela regressiva do imposto de renda - com alíquotas decrescentes de 35% a 10%, para quem investir por mais de dez anos -, estimularam os aplicadores de mais longo prazo. O novo sistema tributário, que permite alíquotas menores que os 15% dos fundos de investimento, ajudaram a atrair recursos da alta renda para VGBLs.
Outro fator que favoreceu a expansão do mercado foi a redução da taxa de juros. Para Nascimento, quanto mais cai a taxa básica, mais patente fica a vantagem tributária da previdência - cuja tributação é dada apenas no resgate em todos os casos. No PGBL, no Fapi e nos planos tradicionais, é possível também postergar o imposto da declaração anual completa até o limite de 12% da renda bruta anual.
Para Nascimento, também responsável por seguros, previdência e capitalização no Banco Itaú, discussões em torno da reforma da previdência no início do governo Lula e a freqüência das campanhas e reportagens sobre a previdência privada também aproximaram as pessoas dos planos.
Nos últimos anos, os profissionais ligados a bancos ou não também passaram a conhecer melhor os produtos de previdência e a oferecê-los com mais propriedade aos investidores, reconhece D'Agosto, do Fortuna. De acordo com o site, no ano passado, os planos de previdência multimercados tiveram a melhor rentabilidade, de 21,4%, apesar do pouco patrimônio. Os renda fixa acumularam média de 14,98%, os balanceados (com ações e renda fixa) avançaram 18,17% e os antigos Fapi subiram apenas 9,58%.
Os planos de renda fixa ainda são os preferidos, com captação de R$ 9,77 bilhões no ano, ou 91,6% do total. Eles detêm R$ 64,6 bilhões, ou 93% do patrimônio total. Os balanceados têm R$ 3,2 bilhões, ou 4,56%, e os multimercados, 1,2 bilhão (1,73%). Os R$ 422 milhões restantes estão divididos entre DIs, outros tipos e cambiais.