Título: Crise ofusca brilho do salão de Paris
Autor: Olmos, Marli
Fonte: Valor Econômico, 03/10/2006, Empresas, p. B7

A intenção era chamar a atenção para os automóveis. Mas o que os executivos das montadoras que enfrentam problemas nos Estados Unidos e Europa mais fizeram nos dois dias que antecederam a abertura do salão de Paris foi responder às perguntas dos jornalistas sobre as crises e planos de reestruturação.

Os executivos de um setor habituado ao luxo e ostentação dos produtos que fabrica não têm outra saída no momento a não ser falar em redução de custos.

Pressionado pela necessidade de alcançar uma economia de US$ 9 bilhões na operação americana, o presidente mundial da General Motors, Rick Wagoner, gastou boa parte do tempo dedicado à imprensa para justificar as medidas adotadas pela montadora.

O executivo também teve que, seguidas vezes, responder a jornalistas do mundo inteiro sobre aproximação da Toyota da liderança mundial nas vendas de veículos, ocupada hoje pela GM. "É claro que gostamos de ser lideres, mas estamos num processo de reestruturação", disse Wagoner.

O principal executivo da Ford na Europa, John Fleming, que assumiu o cargo há pouco tempo, estaria mais interessado em comentar o aumento dos lucros da companhia na Europa, área que ele domina. Mas por ser o único alto executivo da companhia disponível para entrevistas na feira foi obrigado a falar sobre o enxugamento planejado pela companhia nos Estados Unidos, que acrescentou há poucos dias mais 14 mil demissões ao programa que já tinha 16 mil cortes.

"A reestruturação é um processo necessário quando uma empresa percebe que a sua capacidade é maior do que a sua demanda", disse Fleming. Segundo o executivo, um dos principais desafios da indústria automobilística hoje é saber quanto o cliente quer pagar por um carro. "Também não podemos descuidar das questões de busca de energias alternativas", acrescentou.

Apesar de a crise nas montadoras americanas ser muito mais grave, os fabricantes europeus também não escaparam às questões dos recentes programas de reestruturação. A Volkswagen, com plano de eliminar 20 mil vagas na Europa, optou pela discrição. Seus principais executivos raramente foram vistos no salão nos dois dias reservados à imprensa.

Também manteve desta vez postura mais discreta o principal executivo do grupo francês PSA Peugeot Citroen, Jean-Martin Folz, prestes a deixar o cargo. A imprensa européia afirma que a companhia está em busca de um substituto para Folz, que deixará o comando depois de nove anos. Na semana passada, a PSA anunciou o corte de 10 mil empregos, o equivalente a 7% da força de trabalho.

Outra preocupação constante dos fabricantes europeus é detalhar a migração da produção de veículos do lado ocidental do continente para o Leste Europeu, onde se concentra hoje a produção a baixo custo. A Rússia também foi citada com destaque pelos executivos da GM e Ford como novo pólo industrial do setor.

A coreana Hyundai anunciou que vai aumentar o número de fornecedores na área próxima à sua fábrica na República Tcheca. E enquanto o fechamento da fábrica de Portugal era um dos temas de preocupação no estande da GM, no da Honda era anunciado investimento para elevar a capacidade da sua fábrica no Reino Unido, um plano que vai abrir 700 empregos.

Apesar dos problemas, o charme do salão do automóvel de Paris, evento que se repete a cada dois anos, parece intocado. E enquanto discute meios de produzir carros mais baratos e de estancar os prejuízos, a indústria automobilística manterá a pose durante a feira que estará aberta ao publico até o dia 30.

A repórter viajou a convite da Anfavea