Título: PMDB larga com dois (ou quatro)
Autor: Iunes, Ivan
Fonte: Correio Braziliense, 07/11/2010, Política, p. 4

TRANSIÇÃO A sucessão de Sarney na Presidência do Senado ainda está no começo, mas já traz Edison Lobão e Eunício Oliveira como os primeiros candidatos do partido. Garibaldi e Renan correm por fora

A proximidade do fim do ano legislativo esquentou a bolsa de apostas em torno da sucessão do atual presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). O chefe do Congresso Nacional anunciou aos pares que não deve tentar a reeleição em fevereiro. Sem Sarney na disputa, o xadrez político na Casa aponta para pelo menos três fortes nomes. Homem de confiança do atual presidente, Edison Lobão (PMDB-MA) seria a escolha natural, patrocinada pelo governo federal e pelo próprio partido. Ele conta, no entanto, com as sombras de Eunício Oliveira (PMDB-CE), também com bom trânsito na legenda e no Palácio do Planalto, e de Renan Calheiros (PMDB-AL), que articula para tentar se reabilitar, depois de ter renunciado ao posto em 2007.

Pelo regimento interno do Senado, a Presidência da Casa pertence ao partido com maior número de senadores. A partir de janeiro, o PMDB terá 19 parlamentares, contra 14 do PT e 10 do PSDB. Pela regra, Sarney poderia concorrer à reeleição, mas os ecos provocados pela crise do Senado, que chegou a denúncias envolvendo familiares, motivaram a decisão do atual presidente de se afastar dos holofotes. Sobraria então para o partido a indicação do sucessor de Sarney.

Em almoço durante a semana, as principais lideranças peemedebistas na Casa avaliaram que seria mais prudente levar as articulações a público somente depois de janeiro, para não prejudicar o partido na divisão ministerial do novo governo Dilma. Mas, claro, as movimentações já acontecem em ritmo considerável. Entre os quadros atuais da legenda, quatro senadores são apontados como possíveis sucessores de Sarney ¿ e têm trabalhado para alcançar o posto, mesmo que timidamente. Além de Calheiros, Lobão e Eunício, Garibaldi Alves (PMDB-RN) também é cotado para voltar ao posto que ocupou entre 2007 e 2008.

Segundo parlamentares do próprio PMDB, a aposta principal para a sucessão de Sarney recai mesmo sobre o ex-ministro de Minas e Energia Edison Lobão. A alta cotação da candidatura do senador maranhense se deve à relação próxima com a presidente eleita, Dilma Rousseff, e com o próprio Sarney. E mais: Lobão tem a vantagem de não ter sido alvejado por denúncias recentes e conta com bom trânsito no partido. Dos outros três nomes cotados, o que apresenta melhores chances de participar da disputa é Eunício.

O atual deputado federal só teria caminho livre, no entanto, se Lobão assumisse um ministério. Por isso, ele prefere despistar sobre as intenções no Senado. ¿Não está no meu projeto pessoal ocupar agora a Presidência do Senado. Assumo meu mandato no ano que vem e ainda tenho de conhecer as pessoas e o funcionamento da Casa. Mas na política a gente nunca tem um controle geral das coisas¿, avalia Eunício.

Embora tenha o comando da legenda no Senado, Calheiros teria dificuldades para se eleger por conta da resistência dos outros partidos na Casa. Mesmo entre parlamentares governistas, estão vivas as denúncias de que ele teria pagado pensão a uma filha com dinheiro de empreiteira, além de superfaturar dados de rebanhos de gado. ¿O Renan está se movimentando, tem uma certa simpatia do Planalto, mas é difícil que ele consiga ganhar corpo agora para tentar a reabilitação no cargo de presidente. A Casa entraria novamente em crise¿, avalia um analista político.

Uma possível volta de Garibaldi ao maior posto do Legislativo também estaria descartada, por ora, por conta da postura independente do senador em relação ao governo federal. Nas últimas eleições, o parlamentar foi contra a orientação do próprio partido e apoiou a eleição de Rosalba Ciarlini (DEM) ao governo do Rio Grande do Norte, além da reeleição de José Agripino (DEM-RN) ao Senado. Também pesa contra Garibaldi o fato de o primo Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) ser a escolha do partido para ocupar a Presidência da Câmara dos Deputados, o que deixaria as duas Casas sob o controle da mesma família, caso o senador fosse eleito.

Oposição

O nome do senador eleito por Minas Aécio Neves (PSDB) para a Presidência do Senado ganhou força na semana passada com a declaração do governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), de que vai defender no partido a indicação do mineiro para a sucessão de José Sarney (PMDB). De acordo com Gomes, se a presidente eleita, Dilma Rousseff, fizer um aceno de que estenderá a mão à oposição, a petista conseguirá, antes mesmo de assumir, um pacto de governabilidade que poderia convencer o Congresso a aprovar os projetos do pré-sal ainda este ano. Em reunião do PSB, em Brasília, o nome do ex-governador de Minas foi citado como uma aposta de renovação no comando da Casa em 2011.

Briga para começar Se as negociações pela sucessão no Senado ainda ocorrem apenas dentro dos gabinetes, na Câmara dos Deputados a disputa pela Presidência da Casa já está deflagrada. Por acordo firmado entre os presidentes do PT, José Eduardo Dutra, e do PMDB, Michel Temer, o posto será divido entre os dois partidos nos próximos quatro anos, em um biênio para cada. Ainda não há uma definição sobre quem começaria o rodízio ¿ ambos os partidos querem iniciar o governo Dilma no comando da Casa.

Entre os peemedebistas, o nome natural para ocupar a Presidência é o do deputado federal Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Do lado petista, há uma disputa interna pelo primeiro lugar na fila. O atual líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP) disputa a posição com dois ex-presidentes, João Paulo Cunha (PT-SP) e Arlindo Chinaglia (PT-SP). O atual vice-presidente da Casa, Marco Maia (PT-RS), também reivindica a preferência do partido. (II)